Da Redação
O avanço da plantação de cana-de-açúcar em São Paulo promove uma concentração da produção nas mãos de usinas e grandes fornecedores, eliminando pequenos produtores.
Pedro Ramos, professor e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que só 25% da cana moída pelas usinas é proveniente de fornecedores independentes. Os outros 75% são matéria-prima das usinas.
Com a expansão da produção de álcool, foram agregados novos produtores autônomos, mas cresceram também as áreas das usinas. Quem perdeu espaço foram os pequenos.
Há dez anos, 27,6% dos fornecedores de cana às usinas produziam até 4.000 toneladas. Na safra 2005/6, esse percentual recuou para 18%. Já os fornecedores com volume superior a 10 mil toneladas subiram de 53,2% para 64,9%, mostra a Orplana (reúne os plantadores do centro-sul).
O alto custo das terras, provocado pela própria expansão do plantio da cana, faz com que as usinas e grandes fornecedores prefiram arrendar terras em vez de comprá-las. Esse sistema poderá trazer grande concentração fundiária no futuro, diz o professor da Unicamp.
O arrendamento é remunerador, mas não deixa de ser um incentivo ao produtor para abandonar a propriedade. Quando o contrato não for mais favorável, esse produtor pode ter perdido a identidade com a terra, o que vai facilitar a venda da propriedade às usinas. Braz Albertini, da Fetaesp, que agrega os trabalhadores, diz que, "se a cana dá dinheiro, o pequeno produtor deve plantá-la ou arrendar parte da terra para seu plantio, mas não deve nunca sair de lá para não perder essa identidade com o campo". (MZ)
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
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quarta-feira, 2 de maio de 2007
"Expulso" por pecuária e soja no NE, trabalhador busca canaviais
Da Redação
A expansão da cana no centro-sul está trazendo para São Paulo trabalhadores de regiões cada vez mais distantes. Antes proveniente de Minas Gerais e da Bahia, o novo migrante cortador de cana agora vem também do Maranhão e do Piauí.
Maria Aparecida de Moraes Silva, da Universidade Estadual Paulista, foi a esses dois Estados para pesquisar sobre esses novos trabalhadores. Uma das suas descobertas é que eles são vítimas do próprio setor sucroalcooleiro. Com a expansão da cana no centro-sul e a valorização das terras, a pecuária dessa região está indo para áreas do Maranhão.
A formação de novos pastos ocorre em áreas de babaçu, planta que dá sustento às famílias da região. Sem essa cultura regional, os trabalhadores são obrigados a vir para São Paulo para cortar cana. No Piauí, outra região alvo da pesquisa, os pequenos produtores são expulsos pelo cultivo da soja, produto que também foi em busca de áreas de menor preço devido à valorização no centro-sul.
A pesquisadora diz que a presença de cortadores de cana dessas regiões em SP é recente. Em 2000, o Maranhão mandou apenas uma centena de cortadores ao Estado. Nesta safra, apenas da pequena Timbiras virão 7.000 trabalhadores.
Eles são arrebanhados pelo "gato", pessoa responsável pela seleção e até o custeio da vinda a São Paulo. O "gato" é imprescindível nesse trabalho e faz a ponte entre o trabalhador e as empresas. No Maranhão, ele é chamado de "agente de viagem para Ribeirão Preto". (MZ)
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
A expansão da cana no centro-sul está trazendo para São Paulo trabalhadores de regiões cada vez mais distantes. Antes proveniente de Minas Gerais e da Bahia, o novo migrante cortador de cana agora vem também do Maranhão e do Piauí.
Maria Aparecida de Moraes Silva, da Universidade Estadual Paulista, foi a esses dois Estados para pesquisar sobre esses novos trabalhadores. Uma das suas descobertas é que eles são vítimas do próprio setor sucroalcooleiro. Com a expansão da cana no centro-sul e a valorização das terras, a pecuária dessa região está indo para áreas do Maranhão.
A formação de novos pastos ocorre em áreas de babaçu, planta que dá sustento às famílias da região. Sem essa cultura regional, os trabalhadores são obrigados a vir para São Paulo para cortar cana. No Piauí, outra região alvo da pesquisa, os pequenos produtores são expulsos pelo cultivo da soja, produto que também foi em busca de áreas de menor preço devido à valorização no centro-sul.
A pesquisadora diz que a presença de cortadores de cana dessas regiões em SP é recente. Em 2000, o Maranhão mandou apenas uma centena de cortadores ao Estado. Nesta safra, apenas da pequena Timbiras virão 7.000 trabalhadores.
Eles são arrebanhados pelo "gato", pessoa responsável pela seleção e até o custeio da vinda a São Paulo. O "gato" é imprescindível nesse trabalho e faz a ponte entre o trabalhador e as empresas. No Maranhão, ele é chamado de "agente de viagem para Ribeirão Preto". (MZ)
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
"Tem de ter braço, se não morre de fome"
Joel Silva (Repórter fotográfico da Folha Ribeirão)
"Para ser cortador de cana, tem de ter braço, porque, se não tiver, morre, ou de fome ou no canavial, de tanto trabalhar." A afirmação é de José Lúcio Oliveira, 33, que veio de Barra do Santo Antônio (Alagoas) neste ano para estrear no corte de cana na região de Ribeirão Preto.
Oliveira e os amigos Carlos João de Lima e Oziel Batista Silva acordam às 4h. Os três ocupam uma casa de dois cômodos em Pontal, com um banheiro sem iluminação e mobiliada apenas com um beliche, duas camas de solteiro, uma geladeira, um fogão, um aparelho de DVD e uma TV de 14 polegadas. Pagam R$ 120 de aluguel.
A primeira atividade do grupo é preparar a marmita que será levada para o canavial. Geralmente, o cardápio do grupo é arroz, feijão, macarrão e um cozido de carne. Às 5h, a turma já está no ponto de ônibus, onde se junta a 45 homens e mulheres e embarca em direção ao canavial.
Vestidos com calça comprida, jaleco de manga comprida, com camisa comprida por baixo, gorro para proteger o pescoço, chapéu ou boné, caneleiras para evitar picadas de cobras e cortes das escapadas do facão, botas, luvas e óculos, eles passam mais de seis horas sob o sol. Como ganha mais quem corta mais, os mais fortes e mais experientes no uso do facão saem ganhando.
Os homens chegam a cortar de 100 m a 120 m de cana por dia e ganham, em média, R$ 800 por mês. Na última quinta, Oliveira disse que sentiu dores nas costas e só conseguiu cortar 60 metros.
O grupo faz três paradas para comer o que levou na marmita: uma por volta das 7h15, outra às 10h e a última às 13h -a denominação bóia-fria vem do fato de que nas duas últimas refeições, o alimento está frio, apesar de algumas usinas fornecerem marmitas térmicas.
Às 16h, voltam para a casa, cansados, sujos e famintos, mas ainda não é hora de descansar. Enquanto Lima coloca as botas e luvas em um canto da casa e se prepara para lavar as roupas usadas no dia de trabalho, Oliveira, ainda usando o boné que o protegeu do sol no canavial, começa a preparar o jantar da turma e Silva entra no pequeno banheiro sem iluminação para o banho frio.
Entre os afazeres, discutem o dia de trabalho, reclamam do cansaço e das dores no punho devido aos golpes seguidos do facão. Lima, do tanque de lavar roupa, conta que uma cobra quase o picou no canavial. O cozinheiro Oliveira prepara arroz, salsicha cozida, feijão e bifes. Antes, guarda um pouco para o almoço do dia seguinte.
Antes de comer, os trabalhadores saem em busca de diversão: se reúnem com outros cortadores para uma partida de futebol em campinho improvisado -a passadinha pelo bar para tomar uma cachaça, rotina para muitos bóias-frias, não é adotada pela turma de Oliveira. Depois do futebol, o trio volta para a casa, janta e vai dormir lá pelas 21h.
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
"Para ser cortador de cana, tem de ter braço, porque, se não tiver, morre, ou de fome ou no canavial, de tanto trabalhar." A afirmação é de José Lúcio Oliveira, 33, que veio de Barra do Santo Antônio (Alagoas) neste ano para estrear no corte de cana na região de Ribeirão Preto.
Oliveira e os amigos Carlos João de Lima e Oziel Batista Silva acordam às 4h. Os três ocupam uma casa de dois cômodos em Pontal, com um banheiro sem iluminação e mobiliada apenas com um beliche, duas camas de solteiro, uma geladeira, um fogão, um aparelho de DVD e uma TV de 14 polegadas. Pagam R$ 120 de aluguel.
A primeira atividade do grupo é preparar a marmita que será levada para o canavial. Geralmente, o cardápio do grupo é arroz, feijão, macarrão e um cozido de carne. Às 5h, a turma já está no ponto de ônibus, onde se junta a 45 homens e mulheres e embarca em direção ao canavial.
Vestidos com calça comprida, jaleco de manga comprida, com camisa comprida por baixo, gorro para proteger o pescoço, chapéu ou boné, caneleiras para evitar picadas de cobras e cortes das escapadas do facão, botas, luvas e óculos, eles passam mais de seis horas sob o sol. Como ganha mais quem corta mais, os mais fortes e mais experientes no uso do facão saem ganhando.
Os homens chegam a cortar de 100 m a 120 m de cana por dia e ganham, em média, R$ 800 por mês. Na última quinta, Oliveira disse que sentiu dores nas costas e só conseguiu cortar 60 metros.
O grupo faz três paradas para comer o que levou na marmita: uma por volta das 7h15, outra às 10h e a última às 13h -a denominação bóia-fria vem do fato de que nas duas últimas refeições, o alimento está frio, apesar de algumas usinas fornecerem marmitas térmicas.
Às 16h, voltam para a casa, cansados, sujos e famintos, mas ainda não é hora de descansar. Enquanto Lima coloca as botas e luvas em um canto da casa e se prepara para lavar as roupas usadas no dia de trabalho, Oliveira, ainda usando o boné que o protegeu do sol no canavial, começa a preparar o jantar da turma e Silva entra no pequeno banheiro sem iluminação para o banho frio.
Entre os afazeres, discutem o dia de trabalho, reclamam do cansaço e das dores no punho devido aos golpes seguidos do facão. Lima, do tanque de lavar roupa, conta que uma cobra quase o picou no canavial. O cozinheiro Oliveira prepara arroz, salsicha cozida, feijão e bifes. Antes, guarda um pouco para o almoço do dia seguinte.
Antes de comer, os trabalhadores saem em busca de diversão: se reúnem com outros cortadores para uma partida de futebol em campinho improvisado -a passadinha pelo bar para tomar uma cachaça, rotina para muitos bóias-frias, não é adotada pela turma de Oliveira. Depois do futebol, o trio volta para a casa, janta e vai dormir lá pelas 21h.
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
Cortador trabalha duro, mas recebe bem, diz Rodrigues
Para ex-titular da Agricultura, trabalho na cana é "bruto, pesado, mas bem remunerado"
Roberto Rodrigues se refere a estudo apontando que rotina de cortadores faz com que tenham vida útil de trabalho inferior à dos escravos
Marcelo Toledo (Folha Ribeirão)
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que comandou a pasta no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse ontem que o trabalho dos cortadores de cana é "bruto, pesado, mas bem remunerado".
A afirmação de Rodrigues se refere à reportagem publicada anteontem pela Folha, mostrando, segundo a pesquisadora da Unesp Maria Aparecida de Moraes Silva, que a rotina imposta aos cortadores de cana faz com que eles tenham vida útil de trabalho inferior à dos escravos.
Dezenove mortes foram registradas nos canaviais do Estado de São Paulo desde abril de 2004, supostamente por excesso de trabalho, e estão sob investigação do Ministério Público do Trabalho.
Em média, um trabalhador recebe R$ 2,40 por tonelada de cana-de-açúcar cortada. Sindicatos da categoria afirmam que o salário mensal varia de R$ 700 a R$ 1.200.
Moraes Silva diz que alguns trabalhadores chegam a cortar até 15 toneladas de cana por dia e que o esforço físico diário acarreta sérios problemas à saúde dos trabalhadores.
Sobre as mortes, a Unica (associação das usinas) diz que não há comprovação científica de que elas são provocadas pelo esforço físico.
"O corte de cana com a mão é um trabalho muito duro, bruto e a tendência é a substituição pela mecanização. Outra vertente mostra que a mecanização muito rápida produzirá um desemprego maciço no campo. É preciso encontrar um caminho de tal forma que não haja nenhuma crise social a partir do desemprego nem crescimento dessa imagem negativa de que o corte de cana é um trabalho similar ao trabalho escravo", afirmou o ex-ministro.
Rodrigues disse que a discussão tem que ser feita "sem paixão, com cuidado e clareza".
O ex-ministro disse ainda que propôs ao governo paulista e ao próprio governo federal que use áreas (de 5% a 7%) de São Paulo com culturas permanentes mais nobres, como a fruticultura, para absorver a mão-de-obra dispensada com a mecanização do corte da cana e reutilizá-la de uma forma mais adequada.
Já o secretário de Estado da Agricultura, João Sampaio, afirmou que o setor sucroalcooleiro está em evidência no momento e que, por isso, aparecem problemas como os relatados na reportagem que até então poderiam não ser considerados.
"A discussão é o melhor caminho, o governo está aberto a isso, e já está negociando. Os abusos serão coibidos. A gente só precisa normatizar, ver se as normas estão condizentes", afirmou o secretário.
A reportagem da Folha mostrou ainda que o avanço da plantação de cana-de-açúcar promove uma concentração da produção nas mãos de usinas e grandes fornecedores, eliminando pequenos produtores.
Pedro Ramos, professor e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que apenas 25% da cana moída pelas usinas é proveniente de fornecedores independentes. Ele teme por uma concentração ainda maior no futuro.
Fonte: Folha de S.Paulo (1°/5/2007).
Roberto Rodrigues se refere a estudo apontando que rotina de cortadores faz com que tenham vida útil de trabalho inferior à dos escravos
Marcelo Toledo (Folha Ribeirão)
O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que comandou a pasta no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, disse ontem que o trabalho dos cortadores de cana é "bruto, pesado, mas bem remunerado".
A afirmação de Rodrigues se refere à reportagem publicada anteontem pela Folha, mostrando, segundo a pesquisadora da Unesp Maria Aparecida de Moraes Silva, que a rotina imposta aos cortadores de cana faz com que eles tenham vida útil de trabalho inferior à dos escravos.
Dezenove mortes foram registradas nos canaviais do Estado de São Paulo desde abril de 2004, supostamente por excesso de trabalho, e estão sob investigação do Ministério Público do Trabalho.
Em média, um trabalhador recebe R$ 2,40 por tonelada de cana-de-açúcar cortada. Sindicatos da categoria afirmam que o salário mensal varia de R$ 700 a R$ 1.200.
Moraes Silva diz que alguns trabalhadores chegam a cortar até 15 toneladas de cana por dia e que o esforço físico diário acarreta sérios problemas à saúde dos trabalhadores.
Sobre as mortes, a Unica (associação das usinas) diz que não há comprovação científica de que elas são provocadas pelo esforço físico.
"O corte de cana com a mão é um trabalho muito duro, bruto e a tendência é a substituição pela mecanização. Outra vertente mostra que a mecanização muito rápida produzirá um desemprego maciço no campo. É preciso encontrar um caminho de tal forma que não haja nenhuma crise social a partir do desemprego nem crescimento dessa imagem negativa de que o corte de cana é um trabalho similar ao trabalho escravo", afirmou o ex-ministro.
Rodrigues disse que a discussão tem que ser feita "sem paixão, com cuidado e clareza".
O ex-ministro disse ainda que propôs ao governo paulista e ao próprio governo federal que use áreas (de 5% a 7%) de São Paulo com culturas permanentes mais nobres, como a fruticultura, para absorver a mão-de-obra dispensada com a mecanização do corte da cana e reutilizá-la de uma forma mais adequada.
Já o secretário de Estado da Agricultura, João Sampaio, afirmou que o setor sucroalcooleiro está em evidência no momento e que, por isso, aparecem problemas como os relatados na reportagem que até então poderiam não ser considerados.
"A discussão é o melhor caminho, o governo está aberto a isso, e já está negociando. Os abusos serão coibidos. A gente só precisa normatizar, ver se as normas estão condizentes", afirmou o secretário.
A reportagem da Folha mostrou ainda que o avanço da plantação de cana-de-açúcar promove uma concentração da produção nas mãos de usinas e grandes fornecedores, eliminando pequenos produtores.
Pedro Ramos, professor e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), diz que apenas 25% da cana moída pelas usinas é proveniente de fornecedores independentes. Ele teme por uma concentração ainda maior no futuro.
Fonte: Folha de S.Paulo (1°/5/2007).
terça-feira, 1 de maio de 2007
Cortadores de cana têm vida útil de escravo em SP
Pressionado a produzir mais, trabalhador atua cerca de 12 anos, como na época da escravidão
Conclusão é de pesquisadora da Unesp; usineiros dizem que estão mudando sistema de contratação e que vão melhorar condições
Mauro Zafalonda (Redação)
O novo ciclo da cana-de-açúcar está impondo uma rotina aos cortadores de cana que, para alguns estudiosos, equipara sua vida útil de trabalho à dos escravos. É o lado perverso de um setor que, além de gerar novos empregos e ser um dos principais responsáveis pela movimentação interna da economia, deve exportar US$ 7 bilhões neste ano.
Ao menos 19 mortes já ocorreram nos canaviais de São Paulo desde meados de 2004, supostamente por excesso de trabalho. Preocupados com as condições de trabalho e com a repercussão das mortes, as usinas estão mudando o sistema de contratação desses trabalhadores, antes terceirizados.
A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), diz que a busca por maior produtividade obriga os cortadores de cana a colher até 15 toneladas por dia. Esse esforço físico encurta o ciclo de trabalho na atividade. "Nas atuais condições, passaram a ter uma vida útil de trabalho inferior à do período da escravidão", diz.
Nas décadas de 1980 e 1990, o tempo em que o trabalhador do setor ficava na atividade era de 15 anos. A partir de 2000, "já deve estar por volta de 12 anos", diz Moraes Silva. Devido à ação repetitiva e ao esforço físico, "ele começa a ter problemas seriíssimos de coluna, nos pés, câimbras e tendinite", afirma.
Para o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, antes da proibição do tráfico de escravos da África. Depois dessa data, os proprietários passaram a cuidar melhor dos escravos, e a vida útil subiu para 15 a 20 anos.
Moraes Silva, que desenvolve pesquisa com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sobre os migrantes cortadores de cana, acaba de voltar do Maranhão e do Piauí, novos pólos de fornecimento de mão-de-obra para São Paulo.
Uma das constatações da professora é que a maior exigência de força física no trabalho está forçando a vinda cada vez maior de jovens.
Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba (SP), diz que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens na atividade, com até 18 anos.
Para a pesquisadora, o trabalhador anda de 8 a 9 km por dia, sempre submetido a um grande esforço físico, o que causa sérios problemas à saúde. "Esse trabalho tem provocado uma dilapidação -esse é o termo, não encontro outro- dos trabalhadores", afirma ela.
Moraes Silva, porém, afirma que a situação começa a melhorar. Com pressão do Ministério Público, as usinas estão fazendo exames admissionais e adotaram várias medidas de proteção aos trabalhadores, diz.
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
Conclusão é de pesquisadora da Unesp; usineiros dizem que estão mudando sistema de contratação e que vão melhorar condições
Mauro Zafalonda (Redação)
O novo ciclo da cana-de-açúcar está impondo uma rotina aos cortadores de cana que, para alguns estudiosos, equipara sua vida útil de trabalho à dos escravos. É o lado perverso de um setor que, além de gerar novos empregos e ser um dos principais responsáveis pela movimentação interna da economia, deve exportar US$ 7 bilhões neste ano.
Ao menos 19 mortes já ocorreram nos canaviais de São Paulo desde meados de 2004, supostamente por excesso de trabalho. Preocupados com as condições de trabalho e com a repercussão das mortes, as usinas estão mudando o sistema de contratação desses trabalhadores, antes terceirizados.
A pesquisadora Maria Aparecida de Moraes Silva, professora livre docente da Unesp (Universidade Estadual Paulista), diz que a busca por maior produtividade obriga os cortadores de cana a colher até 15 toneladas por dia. Esse esforço físico encurta o ciclo de trabalho na atividade. "Nas atuais condições, passaram a ter uma vida útil de trabalho inferior à do período da escravidão", diz.
Nas décadas de 1980 e 1990, o tempo em que o trabalhador do setor ficava na atividade era de 15 anos. A partir de 2000, "já deve estar por volta de 12 anos", diz Moraes Silva. Devido à ação repetitiva e ao esforço físico, "ele começa a ter problemas seriíssimos de coluna, nos pés, câimbras e tendinite", afirma.
Para o historiador Jacob Gorender, o ciclo de vida útil dos escravos na agricultura era de 10 a 12 anos até 1850, antes da proibição do tráfico de escravos da África. Depois dessa data, os proprietários passaram a cuidar melhor dos escravos, e a vida útil subiu para 15 a 20 anos.
Moraes Silva, que desenvolve pesquisa com o apoio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) sobre os migrantes cortadores de cana, acaba de voltar do Maranhão e do Piauí, novos pólos de fornecimento de mão-de-obra para São Paulo.
Uma das constatações da professora é que a maior exigência de força física no trabalho está forçando a vinda cada vez maior de jovens.
Aparecida de Jesus Pino Camargo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Piracicaba (SP), diz que a maioria dos cortadores de cana está na faixa de 25 a 40 anos, mas que há cada vez mais jovens na atividade, com até 18 anos.
Para a pesquisadora, o trabalhador anda de 8 a 9 km por dia, sempre submetido a um grande esforço físico, o que causa sérios problemas à saúde. "Esse trabalho tem provocado uma dilapidação -esse é o termo, não encontro outro- dos trabalhadores", afirma ela.
Moraes Silva, porém, afirma que a situação começa a melhorar. Com pressão do Ministério Público, as usinas estão fazendo exames admissionais e adotaram várias medidas de proteção aos trabalhadores, diz.
Fonte: Folha de S.Paulo (29/4/2007).
terça-feira, 3 de abril de 2007
Agronegócio multiplica favelas e prisões
Eduardo Sales de Lima, da redação.
Ribeirão Preto (SP), a “Califórnia Brasileira”, capital nacional do agronegócio, tornou-se exemplo de organização e empenho dos grandes empresários da cana-de-açúcar. Pena que todo esse lucro seja resultado da superexploração dos camponeses, da expulsão do homem do campo e do desmatamento ambiental.
Dados da Associação Brasileira do Agronegócio de Ribeirão Preto (Abag-RP) mostram que, entre 1982 e 2001, pequenas cidades da região revelaram crescimento superior a 100% na participação no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS): Colina (113,47%), Pedregulho (162,17%), Rifaina (252,59%) e Luís Antônio (1.106,4%).
Os produtos orindos da cana-de-açúcar são a principal referência do agronegócio na região. Sendo assim, projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgadas em dezembro de 2006 provavelmente irão aumentar a sanha dos empresários locais. A produção de etanol projetada para 2007 é de 38,6 bilhões de litros, mais que o dobro da produção de 2005.
O aumento dos negócios da elite local, nacional e das transnacionais contrasta com números surpreendentes. Hoje, a população carcerária da região soma 3.813 pessoas, segundo dados da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SAP). A quantidade é muito superior a da população rural, em torno de dois mil habitantes.
Mais favelas
A taxa da população rural de Ribeirão Preto é um irrisório 0,03%. O slogan da Abag-RP é “Agronegócio, sua vida depende dele”. Logo se observa o que essa dependência tem causado. No final de 2005, eram 31 favelas com 18 mil moradores. Já em 2006: 34 favelas, com 20 mil habitantes (números da Folha de Ribeirão, de 4 de março).
Edivar Lavratti, diretor regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Ribeirão Preto, conta que, na época dos barões do café, algumas pessoas ainda eram mantidas no campo como pequenos arrendatários que cuidavam da lavoura. “A partir do Programa Brasileiro de Álcool (Proálcool) essa realidade se transformou por duas vias, uma foi a retirada das colônias das fazendas e outra a migração de nordestinos. Ribeirão Preto sofreu um impacto muito grande na década de 1980. Houve uma enxurrada de pessoas para cá em busca de serviço. Atualmente, não só houve um aumento do número de favelas, mas também das agrovilas do agronegócio”, denuncia.
Segundo Lavratti, essas agrovilas são espaços de miséria absoluta nas cidades satélites de Ribeirão Preto. Nelas, as pessoas dependem diretamente do corte da cana e convivem com o desemprego por conta da mecanização e do caráter sazonal desse tipo de trabalho. Isso contribui para a ociosidade de uma quantia considerável de homens e mulheres, acarretando problemas sérios relacionados ao alcoolismo.
Mais condomínios de luxo
A quase extinção da população rural, hoje comprovadamente menor que a carcerária, revela, além de um distanciamento entre a zona urbana e o campo, a dependência do abastecimento produtos primários relacionacionados à alimentação. Para a professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP), Lucília Maria Sousa Romão, o que existe nos arredores da cidade atualmente são os condomínios de luxo. “Os camponeses que vivem no campo não existem no sentido de fixarem suas raízes na área rural”, afirma. Ela completa que os cortadores de cana moram e vivem nas cidades em moradias provisórias e são transportados de ônibus para as lavouras.
Por outro lado, os que realmente vivem no campo e contemplam a função social da terra estão nos assentamentos de reforma agrária, que são fruto do movimento sindical rural da região.
Segundo Lavratti, além dos condomínios e dos assentamentos, existem algumas poucas chácaras utilizadas para o lazer e também minifúndios que produzem hortaliças ou criam pequenos animais para o comércio local. “Os últimos dados de 2004 mostram que mais de 80% do que se consome de alimentos em Ribeirão vem de Minas Gerais, de Campinas (SP) e do Nordeste. Praticamente, não existe produção de alimentos”, ressalta o coordenador do MST (leia a reportagem completa na edição 213 do Jornal Brasil de Fato).
Fonte: Agência Brasil de Fato (30/3/2007)
Ribeirão Preto (SP), a “Califórnia Brasileira”, capital nacional do agronegócio, tornou-se exemplo de organização e empenho dos grandes empresários da cana-de-açúcar. Pena que todo esse lucro seja resultado da superexploração dos camponeses, da expulsão do homem do campo e do desmatamento ambiental.
Dados da Associação Brasileira do Agronegócio de Ribeirão Preto (Abag-RP) mostram que, entre 1982 e 2001, pequenas cidades da região revelaram crescimento superior a 100% na participação no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS): Colina (113,47%), Pedregulho (162,17%), Rifaina (252,59%) e Luís Antônio (1.106,4%).
Os produtos orindos da cana-de-açúcar são a principal referência do agronegócio na região. Sendo assim, projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) divulgadas em dezembro de 2006 provavelmente irão aumentar a sanha dos empresários locais. A produção de etanol projetada para 2007 é de 38,6 bilhões de litros, mais que o dobro da produção de 2005.
O aumento dos negócios da elite local, nacional e das transnacionais contrasta com números surpreendentes. Hoje, a população carcerária da região soma 3.813 pessoas, segundo dados da Secretaria de Estado da Administração Penitenciária (SAP). A quantidade é muito superior a da população rural, em torno de dois mil habitantes.
Mais favelas
A taxa da população rural de Ribeirão Preto é um irrisório 0,03%. O slogan da Abag-RP é “Agronegócio, sua vida depende dele”. Logo se observa o que essa dependência tem causado. No final de 2005, eram 31 favelas com 18 mil moradores. Já em 2006: 34 favelas, com 20 mil habitantes (números da Folha de Ribeirão, de 4 de março).
Edivar Lavratti, diretor regional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Ribeirão Preto, conta que, na época dos barões do café, algumas pessoas ainda eram mantidas no campo como pequenos arrendatários que cuidavam da lavoura. “A partir do Programa Brasileiro de Álcool (Proálcool) essa realidade se transformou por duas vias, uma foi a retirada das colônias das fazendas e outra a migração de nordestinos. Ribeirão Preto sofreu um impacto muito grande na década de 1980. Houve uma enxurrada de pessoas para cá em busca de serviço. Atualmente, não só houve um aumento do número de favelas, mas também das agrovilas do agronegócio”, denuncia.
Segundo Lavratti, essas agrovilas são espaços de miséria absoluta nas cidades satélites de Ribeirão Preto. Nelas, as pessoas dependem diretamente do corte da cana e convivem com o desemprego por conta da mecanização e do caráter sazonal desse tipo de trabalho. Isso contribui para a ociosidade de uma quantia considerável de homens e mulheres, acarretando problemas sérios relacionados ao alcoolismo.
Mais condomínios de luxo
A quase extinção da população rural, hoje comprovadamente menor que a carcerária, revela, além de um distanciamento entre a zona urbana e o campo, a dependência do abastecimento produtos primários relacionacionados à alimentação. Para a professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP), Lucília Maria Sousa Romão, o que existe nos arredores da cidade atualmente são os condomínios de luxo. “Os camponeses que vivem no campo não existem no sentido de fixarem suas raízes na área rural”, afirma. Ela completa que os cortadores de cana moram e vivem nas cidades em moradias provisórias e são transportados de ônibus para as lavouras.
Por outro lado, os que realmente vivem no campo e contemplam a função social da terra estão nos assentamentos de reforma agrária, que são fruto do movimento sindical rural da região.
Segundo Lavratti, além dos condomínios e dos assentamentos, existem algumas poucas chácaras utilizadas para o lazer e também minifúndios que produzem hortaliças ou criam pequenos animais para o comércio local. “Os últimos dados de 2004 mostram que mais de 80% do que se consome de alimentos em Ribeirão vem de Minas Gerais, de Campinas (SP) e do Nordeste. Praticamente, não existe produção de alimentos”, ressalta o coordenador do MST (leia a reportagem completa na edição 213 do Jornal Brasil de Fato).
Fonte: Agência Brasil de Fato (30/3/2007)
O Mito dos Biocombustíveis
Edivan Pinto, Marluce Melo e Maria Luisa Mendonça*
Recentes estudos sobre os impactos causados pelos combustíveis fósseis contribuíram para colocar o tema dos biocombustíveis na ordem do dia. Atualmente, a matriz energética é composta por petróleo (35%), carvão (23%) e gás natural (21%). Apenas 10 dos países mais ricos consomem cerca de 80% da energia produzida no mundo. Entre estes, os Estados Unidos são responsáveis por 25% da poluição atmosférica. Analistas estimam que, dentro de 25 anos, a demanda mundial por petróleo, gás natural e carvão tenha um aumento de 80%.
A aceleração do aquecimento global é um fato que coloca em risco a vida do planeta. Porém, é preciso desmistificar a principal solução apontada atualmente, difundida através da propaganda sobre os supostos benefícios dos biocombustíveis. O conceito de energia "renovável" deve ser discutido a partir de uma visão mais ampla que considere os efeitos negativos destas fontes.
A propaganda do "combustível verde" ou "energia limpa" tem sido amplamente difundida no Brasil. "Usados em substituição aos derivados de petróleo, tanto o etanol quanto o biodiesel se convertem em ferramentas capazes de deter o aquecimento global", afirma texto da revista Globo Rural (Novembro, 2006).
Por outro lado, já existem diversos estudos que contradizem essa idéia. Especialista em genética e bioquímica, a professora Mãe-Wan - Ho, da Universidade de Hong Kong, explica que "os biocombustíveis têm sido propagandeados e considerados erroneamente como ´neutros em carbono´, como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera; quando são queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem quando se desenvolvem nos campos é devolvido à atmosfera. Ignoram-se assim os custos das emissões de CO2 e de energia de fertilizantes e pesticidas utilizados nas colheitas, dos utensílios agrícolas, do processamento e refinação, do transporte e da infra-estrutura para distribuição". Para a pesquisadora, os custos extras de energia e das emissões de carbono são ainda maiores quando os biocombustíveis são produzidos em um país e exportados para outro.
Um estudo do Gabinete Belga de Assuntos Científicos mostra resultados semelhantes. "O biodiesel provoca mais problemas de saúde e ambientais porque cria uma poluição mais pulverizada, libera mais poluentes que promovem a destruição da camada de ozônio".
Sobre a produção de etanol, Mãe-Wan - Ho explica que "não foi levada em consideração a enorme liberação de carbono do solo orgânico provocada pela cultura intensiva de cana-de-açúcar que substitui florestas e terras de pastagem que, se fossem regeneradas, poupariam mais de sete toneladas de dióxido de carbono por hectare por ano do que o bioetanol poupa". Além disso, cada litro de etanol produzido consome cerca de quatro litros de água, o que representa um risco de maior escassez de fontes naturais e aqüíferos.
No caso da soja, as estimativas mais otimistas indicam que o saldo de energia renovável produzido para cada unidade de energia fóssil gasto no cultivo é de menos de duas unidades. Isso se deve ao alto consumo de petróleo utilizado em fertilizantes e em máquinas agrícolas. Além disso, a expansão da soja tem causado enorme devastação das florestas e do cerrado no Brasil.
Mesmo assim, a soja tem sido apresentada pelo governo brasileiro como principal cultivo para biodiesel, pelo fato do Brasil ser um dos maiores produtores do mundo. "A cultura da soja desponta como a jóia da coroa do agronegócio brasileiro. A soja pode ser considerada a cunha que permitirá a abertura de mercados de biocombustíveis", afirmam pesquisadores da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. (Revista de Política Agrícola. Ano XIV- nº. 1 - jan/fev/mar. 2005).
O Papel do Brasil
Apesar de não contar com terras agrícolas suficientes para o aumento da produção, a União Européia estabeleceu que até 2010 seus países-membros devem adicionar 5,75% de biodiesel em seu combustível e, até 2015 esta meta seria de 8%. Porém, diversos analistas estimam que além das dificuldades práticas de implementação, dificilmente este projeto alcançaria os objetivos desejados. Segundo a professora Mae-Wan Ho, "se os 5,6 milhões de hectares de reservas da União Européia fossem cultivados com plantas energéticas, pouparíamos apenas de 1,3% a 1,5% das emissões de transportes rodoviários, ou seja, cerca de 0,3% do total de emissões de 15 países."
O governo dos Estados Unidos oferece incentivos fiscais para que a indústria aumente o percentual de biodiesel no diesel comum. Porém, seria necessário utilizar 121% de toda a área agrícola dos EUA para substituir a demanda atual de combustíveis fósseis naquele país.
Neste contexto, o papel do Brasil seria fornecer energia barata para países ricos, o que representa uma nova fase da colonização. As atuais políticas para o setor são sustentadas nos mesmos elementos que marcaram a colonização brasileira: apropriação de território, de bens naturais e de trabalho, o que representa maior concentração de terra, água, renda e poder.
Estima-se que mais de 90 milhões de hectares de terras poderiam ser utilizadas para produzir biocombustíveis. Além disso, a "eficiência" de nossa produção se deve à disponibilidade de mão-de-obra barata e até mesmo escrava. Essas características são difundidas por órgãos governamentais e por alguns intelectuais, que criam a idéia de que a produção de agroenergia traria grandes benefícios.
"Nosso país possui a maior extensão de terra do mundo que ainda pode ser incorporada ao processo produtivo", afirmam pesquisadores da Embrapa. Eles estimam que a produção de biomassa "poderá ser o mais importante componente do agronegócio brasileiro". Em relação à expansão da produção de etanol, concluem que há a "possibilidade de expansão da cana-de-açúcar em quase todo o território nacional".
Atualmente as usinas brasileiras têm capacidade de produzir 800 milhões de litros de biodiesel por ano, utilizados na mistura de 2% ao diesel comum. A meta estabelecida pelas empresas do setor é chegar a um bilhão de litros por ano até 2008, quando a previsão é adicionar 5% ao combustível fóssil.
Análises do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) indicam este tipo de investimento como prioridade e estimam a construção de cem usinas até 2010. Em 2004, o banco investiu R$580 milhões no setor e em 2006, este montante subiu para R$2,2 bilhões. O Brasil produz atualmente 17 bilhões de litros de álcool por ano. Segundo o BNDES, seriam necessários mais oito bilhões de litros somente para atender o mercado interno. Portanto, o banco prevê que o Brasil deve expandir sua produção para outros países. Com a pretensão de controlar 50% do mercado mundial de etanol, o BNDES estima que o Brasil deve chegar a produzir 110 bilhões de litros por ano.
"Apenas na região do cerrado, podem ser disponibilizados nos próximos anos para plantio de grãos mais de 20 milhões de hectares", revela relatório da Embrapa. No Nordeste, segundo os pesquisadores, "somente para a mamona há uma área de três milhões de hectares apta ao cultivo". Eles afirmam ainda que "A Amazônia brasileira possui o maior potencial para plantio de dendê no mundo, com área estimada de 70 milhões de hectares".
Todavia, este produto é conhecido como "diesel do desmatamento". A produção em massa do óleo de palma (como é conhecido em outros países) já causou a devastação de grandes extensões de florestas na Colômbia, Equador e Indonésia. Na Malásia, maior produtor mundial de óleo de palma, 87% das florestas foram devastadas.
Além da destruição ambiental e da utilização de terras agrícolas para a produção de biomassa, há outros efeitos poluidores neste processo, como a construção de infraestrutura de transporte e armazenamento, que demandam grande quantidade de energia. Seria necessário também aumentar o uso de máquinas agrícolas, de insumos (fertilizantes e agrotóxicos) e de irrigação para garantir o aumento da produção.
O Brasil pode também cumprir a missão de legitimar a política externa do governo estadunidense. Em visita ao Brasil, em fevereiro de 2007, o subsecretário de Estado, Nicholas Burns, afirmou que "A pesquisa e o desenvolvimento de biocombustíveis podem ser o eixo simbólico de uma parceria nova e mais forte entre Brasil e Estados Unidos". Os dois países controlam 70% da produção mundial de etanol. Recentemente, em resposta ao impacto deste tema na sociedade, o governo Bush anunciou que pretende reduzir o consumo de petróleo em 20%. Segundo Burns, "A energia tende a distorcer o poder de alguns Estados que nós achamos que têm um peso negativo no mundo, como a Venezuela e o Irã". (Folha de S. Paulo, 7 de fevereiro de 2007).
A expansão da produção de bioenergia é de grande interesse para empresas de organismos geneticamente modificados, que esperam obter maior aceitação do público se difundirem os produtos transgênicos como fontes de energia "limpa".
"Todas as empresas que produzem cultivos transgênicos - Syngenta, Monsanto, Dupont, Dow, Bayer, BASF - têm investimentos em cultivos concebidos para a produção de biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel. Têm, além disso, acordos de colaboração com transnacionais como a Cargill, Archer, Daniel Midland, Bunge, que dominam o comércio mundial de cereais. Na maioria dos casos, a investigação está voltada para a obtenção de novos tipos de manipulação genética de milho, cana-de- açúcar, soja, dentre outros, convertendo-os em cultivos não comestíveis, o que aumenta dramaticamente os riscos que por si sós já implica a contaminação transgênica", explica Silvia Ribeiro, investigadora do Grupo ETC do México.
Segundo Eric Holt-Gimenez, coordenador da organização Food First, "Três grandes empresas (ADM, Cargill e Monsanto) estão forjando seu império: engenharia genética, processamento e transporte-uma aliança que vai amarrar a produção e a venda de etanol. E acrescenta que outras empresas do agronegócio como Bunge, Sygenta, Bayer e Dupont, aliadas à transnacionais de petróleo como Shell, TOTAL e British Petroleum, e também à automotoras como Volkswagen, Peugeot, Citroen, Renault e SAAB, formam uma parceria inédita visando grandes lucros com biocombustíveis.
O papel da agricultura camponesa
Edna Carmélio, coordenadora de biocombustíveis do Ministério de Desenvolvimento Agrário, afirma que "A produção do etanol é concentradora de renda; já a de biodiesel, mesmo não sendo exclusiva da agricultura familiar, tem forte componente social".
Experiências como a plantação da mamona por pequenos agricultores no Nordeste demonstraram o risco de dependência a grandes empresas agrícolas, que controlam os preços, o processamento e a distribuição da produção. Os camponeses são utilizados para dar legitimidade ao agronegócio, através da distribuição de certificados de "combustível social".
A expansão da produção de biocombustíveis coloca em risco a soberania alimentar e pode agravar profundamente o problema da fome no mundo. No México, por exemplo, o aumento das exportações de milho para abastecer o mercado de etanol nos Estados Unidos causou um aumento de 400% no preço do produto, que é a principal fonte de alimento da população.
Este modelo causa impactos negativos em comunidades camponesas, ribeirinhas, indígenas e quilombolas, que têm seus territórios ameaçados pela constante expansão do capital. Silvia Ribeiro alerta que "agora são os automóveis, não as pessoas, os que demandam a produção anual de cereais. A quantidade de grãos que se exige para encher o reservatório de uma camionete com etanol é suficiente para alimentar uma pessoa durante um ano".
Alguns analistas empresariais até admitem que há problemas ambientais e risco à produção de alimentos, mas afirmam que precisamos escolher "o mal menor". Neste caso, defendem até mesmo a destruição de florestas com o objetivo de expandir seus lucros com a produção de bioenergia, também conhecida como "ouro verde".
Na verdade, uma mudança na matriz energética que buscasse realmente preservar a vida no planeta teria que significar também uma profunda transformação nos padrões atuais de consumo, no conceito de "desenvolvimento" e na própria organização de nossas sociedades. É preciso investir em alternativas como a energia eólica, solar, fotovoltaica, das marés, geotérmoca. Porém, discutir novas fontes de energia implica, em primeiro lugar, refletir a serviço de quem estará esta nova matriz. A construção de uma nova matriz energética deve levar em conta quem se beneficiará ou qual propósito servirá.
O modelo agrícola deve estar baseado na agroecologia e na diversificação da produção. É urgente resgatar e multiplicar experiências de agricultura camponesa, a partir da diversidade dos ecosistemas. Existem múltiplas tecnologias e conhecimentos tradicionais de produção como as agroflorestas, sistemas agropastoris, integrados e duradouros. Há também tecnologias e saberes locais de captação, armazenamento, manejo e usos de água para consumo e produção, que preservam fontes naturais.
Estas não são soluções simplistas. Tampouco são suficientes mudanças em atitudes individuais de "consumidores", como comprar um outro tipo de carro, de lâmpada, etc. A maior responsabilidade pelo aquecimento global é justamente de grandes empresas que destroem as florestas e poluem o meio ambiente-as mesmas petroleiras, automotivas, agrícolas, entre outras, que pretendem lucrar com a bioenergia.
* Edivan Pinto e Marluce Melo são membros da Comissão Pastoral da Terra Regional Nordeste - CPT NE. Maria Luisa Mendonça é membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
Fonte: Agência Brasil de Fato (22/2/2007)
Recentes estudos sobre os impactos causados pelos combustíveis fósseis contribuíram para colocar o tema dos biocombustíveis na ordem do dia. Atualmente, a matriz energética é composta por petróleo (35%), carvão (23%) e gás natural (21%). Apenas 10 dos países mais ricos consomem cerca de 80% da energia produzida no mundo. Entre estes, os Estados Unidos são responsáveis por 25% da poluição atmosférica. Analistas estimam que, dentro de 25 anos, a demanda mundial por petróleo, gás natural e carvão tenha um aumento de 80%.
A aceleração do aquecimento global é um fato que coloca em risco a vida do planeta. Porém, é preciso desmistificar a principal solução apontada atualmente, difundida através da propaganda sobre os supostos benefícios dos biocombustíveis. O conceito de energia "renovável" deve ser discutido a partir de uma visão mais ampla que considere os efeitos negativos destas fontes.
A propaganda do "combustível verde" ou "energia limpa" tem sido amplamente difundida no Brasil. "Usados em substituição aos derivados de petróleo, tanto o etanol quanto o biodiesel se convertem em ferramentas capazes de deter o aquecimento global", afirma texto da revista Globo Rural (Novembro, 2006).
Por outro lado, já existem diversos estudos que contradizem essa idéia. Especialista em genética e bioquímica, a professora Mãe-Wan - Ho, da Universidade de Hong Kong, explica que "os biocombustíveis têm sido propagandeados e considerados erroneamente como ´neutros em carbono´, como se não contribuíssem para o efeito estufa na atmosfera; quando são queimados, o dióxido de carbono que as plantas absorvem quando se desenvolvem nos campos é devolvido à atmosfera. Ignoram-se assim os custos das emissões de CO2 e de energia de fertilizantes e pesticidas utilizados nas colheitas, dos utensílios agrícolas, do processamento e refinação, do transporte e da infra-estrutura para distribuição". Para a pesquisadora, os custos extras de energia e das emissões de carbono são ainda maiores quando os biocombustíveis são produzidos em um país e exportados para outro.
Um estudo do Gabinete Belga de Assuntos Científicos mostra resultados semelhantes. "O biodiesel provoca mais problemas de saúde e ambientais porque cria uma poluição mais pulverizada, libera mais poluentes que promovem a destruição da camada de ozônio".
Sobre a produção de etanol, Mãe-Wan - Ho explica que "não foi levada em consideração a enorme liberação de carbono do solo orgânico provocada pela cultura intensiva de cana-de-açúcar que substitui florestas e terras de pastagem que, se fossem regeneradas, poupariam mais de sete toneladas de dióxido de carbono por hectare por ano do que o bioetanol poupa". Além disso, cada litro de etanol produzido consome cerca de quatro litros de água, o que representa um risco de maior escassez de fontes naturais e aqüíferos.
No caso da soja, as estimativas mais otimistas indicam que o saldo de energia renovável produzido para cada unidade de energia fóssil gasto no cultivo é de menos de duas unidades. Isso se deve ao alto consumo de petróleo utilizado em fertilizantes e em máquinas agrícolas. Além disso, a expansão da soja tem causado enorme devastação das florestas e do cerrado no Brasil.
Mesmo assim, a soja tem sido apresentada pelo governo brasileiro como principal cultivo para biodiesel, pelo fato do Brasil ser um dos maiores produtores do mundo. "A cultura da soja desponta como a jóia da coroa do agronegócio brasileiro. A soja pode ser considerada a cunha que permitirá a abertura de mercados de biocombustíveis", afirmam pesquisadores da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. (Revista de Política Agrícola. Ano XIV- nº. 1 - jan/fev/mar. 2005).
O Papel do Brasil
Apesar de não contar com terras agrícolas suficientes para o aumento da produção, a União Européia estabeleceu que até 2010 seus países-membros devem adicionar 5,75% de biodiesel em seu combustível e, até 2015 esta meta seria de 8%. Porém, diversos analistas estimam que além das dificuldades práticas de implementação, dificilmente este projeto alcançaria os objetivos desejados. Segundo a professora Mae-Wan Ho, "se os 5,6 milhões de hectares de reservas da União Européia fossem cultivados com plantas energéticas, pouparíamos apenas de 1,3% a 1,5% das emissões de transportes rodoviários, ou seja, cerca de 0,3% do total de emissões de 15 países."
O governo dos Estados Unidos oferece incentivos fiscais para que a indústria aumente o percentual de biodiesel no diesel comum. Porém, seria necessário utilizar 121% de toda a área agrícola dos EUA para substituir a demanda atual de combustíveis fósseis naquele país.
Neste contexto, o papel do Brasil seria fornecer energia barata para países ricos, o que representa uma nova fase da colonização. As atuais políticas para o setor são sustentadas nos mesmos elementos que marcaram a colonização brasileira: apropriação de território, de bens naturais e de trabalho, o que representa maior concentração de terra, água, renda e poder.
Estima-se que mais de 90 milhões de hectares de terras poderiam ser utilizadas para produzir biocombustíveis. Além disso, a "eficiência" de nossa produção se deve à disponibilidade de mão-de-obra barata e até mesmo escrava. Essas características são difundidas por órgãos governamentais e por alguns intelectuais, que criam a idéia de que a produção de agroenergia traria grandes benefícios.
"Nosso país possui a maior extensão de terra do mundo que ainda pode ser incorporada ao processo produtivo", afirmam pesquisadores da Embrapa. Eles estimam que a produção de biomassa "poderá ser o mais importante componente do agronegócio brasileiro". Em relação à expansão da produção de etanol, concluem que há a "possibilidade de expansão da cana-de-açúcar em quase todo o território nacional".
Atualmente as usinas brasileiras têm capacidade de produzir 800 milhões de litros de biodiesel por ano, utilizados na mistura de 2% ao diesel comum. A meta estabelecida pelas empresas do setor é chegar a um bilhão de litros por ano até 2008, quando a previsão é adicionar 5% ao combustível fóssil.
Análises do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) indicam este tipo de investimento como prioridade e estimam a construção de cem usinas até 2010. Em 2004, o banco investiu R$580 milhões no setor e em 2006, este montante subiu para R$2,2 bilhões. O Brasil produz atualmente 17 bilhões de litros de álcool por ano. Segundo o BNDES, seriam necessários mais oito bilhões de litros somente para atender o mercado interno. Portanto, o banco prevê que o Brasil deve expandir sua produção para outros países. Com a pretensão de controlar 50% do mercado mundial de etanol, o BNDES estima que o Brasil deve chegar a produzir 110 bilhões de litros por ano.
"Apenas na região do cerrado, podem ser disponibilizados nos próximos anos para plantio de grãos mais de 20 milhões de hectares", revela relatório da Embrapa. No Nordeste, segundo os pesquisadores, "somente para a mamona há uma área de três milhões de hectares apta ao cultivo". Eles afirmam ainda que "A Amazônia brasileira possui o maior potencial para plantio de dendê no mundo, com área estimada de 70 milhões de hectares".
Todavia, este produto é conhecido como "diesel do desmatamento". A produção em massa do óleo de palma (como é conhecido em outros países) já causou a devastação de grandes extensões de florestas na Colômbia, Equador e Indonésia. Na Malásia, maior produtor mundial de óleo de palma, 87% das florestas foram devastadas.
Além da destruição ambiental e da utilização de terras agrícolas para a produção de biomassa, há outros efeitos poluidores neste processo, como a construção de infraestrutura de transporte e armazenamento, que demandam grande quantidade de energia. Seria necessário também aumentar o uso de máquinas agrícolas, de insumos (fertilizantes e agrotóxicos) e de irrigação para garantir o aumento da produção.
O Brasil pode também cumprir a missão de legitimar a política externa do governo estadunidense. Em visita ao Brasil, em fevereiro de 2007, o subsecretário de Estado, Nicholas Burns, afirmou que "A pesquisa e o desenvolvimento de biocombustíveis podem ser o eixo simbólico de uma parceria nova e mais forte entre Brasil e Estados Unidos". Os dois países controlam 70% da produção mundial de etanol. Recentemente, em resposta ao impacto deste tema na sociedade, o governo Bush anunciou que pretende reduzir o consumo de petróleo em 20%. Segundo Burns, "A energia tende a distorcer o poder de alguns Estados que nós achamos que têm um peso negativo no mundo, como a Venezuela e o Irã". (Folha de S. Paulo, 7 de fevereiro de 2007).
A expansão da produção de bioenergia é de grande interesse para empresas de organismos geneticamente modificados, que esperam obter maior aceitação do público se difundirem os produtos transgênicos como fontes de energia "limpa".
"Todas as empresas que produzem cultivos transgênicos - Syngenta, Monsanto, Dupont, Dow, Bayer, BASF - têm investimentos em cultivos concebidos para a produção de biocombustíveis, como o etanol e o biodiesel. Têm, além disso, acordos de colaboração com transnacionais como a Cargill, Archer, Daniel Midland, Bunge, que dominam o comércio mundial de cereais. Na maioria dos casos, a investigação está voltada para a obtenção de novos tipos de manipulação genética de milho, cana-de- açúcar, soja, dentre outros, convertendo-os em cultivos não comestíveis, o que aumenta dramaticamente os riscos que por si sós já implica a contaminação transgênica", explica Silvia Ribeiro, investigadora do Grupo ETC do México.
Segundo Eric Holt-Gimenez, coordenador da organização Food First, "Três grandes empresas (ADM, Cargill e Monsanto) estão forjando seu império: engenharia genética, processamento e transporte-uma aliança que vai amarrar a produção e a venda de etanol. E acrescenta que outras empresas do agronegócio como Bunge, Sygenta, Bayer e Dupont, aliadas à transnacionais de petróleo como Shell, TOTAL e British Petroleum, e também à automotoras como Volkswagen, Peugeot, Citroen, Renault e SAAB, formam uma parceria inédita visando grandes lucros com biocombustíveis.
O papel da agricultura camponesa
Edna Carmélio, coordenadora de biocombustíveis do Ministério de Desenvolvimento Agrário, afirma que "A produção do etanol é concentradora de renda; já a de biodiesel, mesmo não sendo exclusiva da agricultura familiar, tem forte componente social".
Experiências como a plantação da mamona por pequenos agricultores no Nordeste demonstraram o risco de dependência a grandes empresas agrícolas, que controlam os preços, o processamento e a distribuição da produção. Os camponeses são utilizados para dar legitimidade ao agronegócio, através da distribuição de certificados de "combustível social".
A expansão da produção de biocombustíveis coloca em risco a soberania alimentar e pode agravar profundamente o problema da fome no mundo. No México, por exemplo, o aumento das exportações de milho para abastecer o mercado de etanol nos Estados Unidos causou um aumento de 400% no preço do produto, que é a principal fonte de alimento da população.
Este modelo causa impactos negativos em comunidades camponesas, ribeirinhas, indígenas e quilombolas, que têm seus territórios ameaçados pela constante expansão do capital. Silvia Ribeiro alerta que "agora são os automóveis, não as pessoas, os que demandam a produção anual de cereais. A quantidade de grãos que se exige para encher o reservatório de uma camionete com etanol é suficiente para alimentar uma pessoa durante um ano".
Alguns analistas empresariais até admitem que há problemas ambientais e risco à produção de alimentos, mas afirmam que precisamos escolher "o mal menor". Neste caso, defendem até mesmo a destruição de florestas com o objetivo de expandir seus lucros com a produção de bioenergia, também conhecida como "ouro verde".
Na verdade, uma mudança na matriz energética que buscasse realmente preservar a vida no planeta teria que significar também uma profunda transformação nos padrões atuais de consumo, no conceito de "desenvolvimento" e na própria organização de nossas sociedades. É preciso investir em alternativas como a energia eólica, solar, fotovoltaica, das marés, geotérmoca. Porém, discutir novas fontes de energia implica, em primeiro lugar, refletir a serviço de quem estará esta nova matriz. A construção de uma nova matriz energética deve levar em conta quem se beneficiará ou qual propósito servirá.
O modelo agrícola deve estar baseado na agroecologia e na diversificação da produção. É urgente resgatar e multiplicar experiências de agricultura camponesa, a partir da diversidade dos ecosistemas. Existem múltiplas tecnologias e conhecimentos tradicionais de produção como as agroflorestas, sistemas agropastoris, integrados e duradouros. Há também tecnologias e saberes locais de captação, armazenamento, manejo e usos de água para consumo e produção, que preservam fontes naturais.
Estas não são soluções simplistas. Tampouco são suficientes mudanças em atitudes individuais de "consumidores", como comprar um outro tipo de carro, de lâmpada, etc. A maior responsabilidade pelo aquecimento global é justamente de grandes empresas que destroem as florestas e poluem o meio ambiente-as mesmas petroleiras, automotivas, agrícolas, entre outras, que pretendem lucrar com a bioenergia.
* Edivan Pinto e Marluce Melo são membros da Comissão Pastoral da Terra Regional Nordeste - CPT NE. Maria Luisa Mendonça é membro da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.
Fonte: Agência Brasil de Fato (22/2/2007)
As contradições do etanol
Eduardo Sales de Lima, da redação.
O presidente estadunidense, George W. Bush, desembarcará no Brasil, em 8 de março, entoando a necessidade de ampliar os negócios do etanol (álcool combustível) entre os dois países. Além do conteúdo geopolítico do seu giro pela América do Sul – a tentativa de isolar Hugo Chávez (Venezuela) e recompor a influência estadunidense na região –, Bush apresentará ao presidente Lula uma proposta para colocar o Brasil ainda mais na órbita da economia estadunidense: a criação de um mercado global para o etanol.
Bush está propondo que os Estados Unidos reduzam o consumo de gasolina em 20% até 2017 e sugere uma parceria estratégica com o Brasil neste sentido. A iniciativa animou o governo brasileiro e, de certa forma, está em sintonia com os esforços de ampliar as exportações por meio do agronegócio. Não é de hoje que diplomatas tentam reduzir as barreiras na Organização Mundial do Comércio (OMC) para vender o açúcar e de álcool. Estados Unidos e Brasil possuem as duas maiores empresas produtoras de álcool: ADM e Copersucar, respectivamente.
A idéia da parceria, como era esperado, foi bem recebida pela mídia corporativa e agradou os setores conservadores. Para os Estados Unidos, a expansão do uso do etanol poderia representar um contraponto ainda à dependência do país de combustíveis fósseis. Segundo afirmaram integrantes do governo Bush, seria uma forma de contrabalancear a força política que estão demonstrando países com fartas reservas de petróleo e adversários das políticas estadunidenses, como Venezuela e Irã.
Noves fora o xadrez geopolítico, especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato denunciam o custo social e ambiental da expansão da monocultura de cana-de-açúcar - algo que, aliás, remete ao processo colonizatório do país. "O impacto será grande. Estão previstas dezenas de usinas, com destaque para a porção Oeste do Estado de São Paulo e, especialmente no Pontal do Paranapanema, onde as terras são baratas pelo fato de serem griladas", avalia o geógrafo e coordenador do Grupo de Trabalho Desenvolvimento Rural do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (Clacso), Bernardo Mançano Fernandes.
Cultura em expansão
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, entre os anos 2005 e 2006, a área plantada passou de 5,62 para 7,04 milhões de hectares plantados, e a produção, de 420 para 460 toneladas de cana-de-acúcar. Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (UNICA), a produção da planta aumentará cerca de 50% durante os próximos seis anos. Até o 2012, devem ser construídas mais de 70 usinas por todo o Brasil, sendo a maior parte em São Paulo. Atualmente, existem 363 cadastradas no país. São Paulo aparece com 170, seguido do Paraná, com 29 e Pernambuco e Alagoas, que contabilizam 26 usina cada.
"Historicamente, a produção de açúcar está associada com o trabalho escravo de índios e negros", afirma Plácido Júnior, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco. Segundo dados da Comissão Pastoral do Migrante (CPM), desde 2004 foram 15 óbitos, só no estado de São Paulo. A maioria é de migrantes de Minas Gerais e do Nordeste, quase todas relacionadas ao excesso de trabalho em usinas e canaviais. (Leia mais aqui sobre a Exploração do trabalhador na cultura de cana-de-açúcar)
"Em Pernambuco, 18 famílias controlam toda a produção de cana. Juntas, acumulam 4 bilhões de dólares de dívida pública", denuncia o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco, Plácido Júnior. Para Bernardo Mançano, a territorialização da cana criará uma nova questão agrária. "A luta pela reforma agrária vai se expandir em luta pela defesa da agricultura camponesa e esta em uma luta territorial, para defender as terras do poder destrutivo do agronegócio da cana. Hoje o setor da cana controla cinco milhões de hectares. Poderá dobrar esta área", adverte Mançano.
A monocultura e a manutenção do poder dos grandes empresários do setor em detrimento da agricultura familiar têm tudo para crescer. O interesse dos Estados Unidos pode acarretar também um processo de desnacionalização do setor. Figuras como o fundador da Microsoft, Bill Gates, os donos da Google, Larry Page e Sergey Brin, e o investidor húngaro George Soros estão dispostos a investir pesado nas usinas de cana, de acordo com a Revista Exame.
Mais latifúndios
"Sem dúvidas, com a territorialização da cana, ocorrerá uma intensificação da concentração de terras. Isso vai significar a expropriação de milhares de pequenas propriedades", aponta o geógrafo. Para ele, o poder do agronegócio da cana reúne as vantagens necessárias para sua expansão: cria as regras e controla as políticas da produção. "A única coisa que pode abalar esse processo é a crise econômica do próprio setor sucro-alcooleiro, principalmente em escala internacional. Todavia, acaba de sair de uma crise e se encontra em ascensão com as perspectivas de crescimento dos mercados de biocombustíveis", explica o membro da Clacso, ressaltando que tal setor só pode ser comparado à monocultura de árvores quanto a sua rentabilidade.
O fato é que a força política dos empresários sucroalcooleiros influencia os governos. Segundo Mançano, a expropriação das pequenas propriedades tende ser interpretada como uma etapa natural das transformações da agricultura. "É preciso repensar esse processo, construir leituras que demonstrem as condições expropriatórias e intensamente destrutivas do agronegócio da cana", afirma o geógrafo.
A terceirização da produção de cana-de-acúcar é outro aspecto crítico. Segundo a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, enquanto as usinas antigas também possuem as terras do plantio, as atuais arrendam-nas. "Essas usinas que se instalam, inclusive as estrangeiras, financiadas pelo BNDES com juros baixíssimos, não compram terras, só a planta industrial. Há pequenos, médios e grandes fornecedores", diz a socióloga. Segundo Aparecida, é comum no Estado de São Paulo, ao lado do fornecedor proprietário, a figura do arrendatário, responsável pela produção da cana-de-açúcar.
Bernardo Mançano acredita que a terceirização das terras pode contribuir para a intensificação da concentração nas mãos dos grandes latifundiários, mas que as velhas oligarquias estão deslocadas do processo de formação do agronegócio. "Elas podem persistir na pecuária, mas não na cana, podem ganhar com o arrendamento da terra, mas isto não lhes dá mais poder, apenas garante sua manutenção", explica o membro da Clacso.
Meio Ambiente
Já os impactos ao meio ambiente estão sendo ignorados pelos que defendem a substituição do peltróleo pelo álcool combustível como medida para reduzir o aquecimento global. Um dos processos de produção mais comuns é a queima da palha do canavial, para facilitar o corte manual e aumentar a produtividade do cortador de cana. Essa prática reduz custos de transporte e aumenta a eficiência das moendas nas usinas. No entanto, a queima libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas) e provoca perdas significativas de nutrientes para as plantas, além de facilitar o aparecimento de ervas daninhas e a erosão. Como opção às queimadas, responsáveis por boa parte das mortes dos cortadores por meio da inalação de gazes cancerígenos, a mecanização pode ser extremamente prejudicial ao solo, pois o comprime, não permitindo a entrada de oxigênio.
Os efluentes do processo industrial da cana-de-açúcar também prejudicam a natureza. Sem o devido tratamento, os dejetos lançados nos rios comprometem a sobrevivência de diversos seres aquáticos "Hoje, nem os mananciais dos rios preservados", atesta Aristides dos Santos, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape). Ele afirma que praticamente toda a Mata Atlântica nordestina foi dizimada pelos donos dos canaviais. "Na entresafra, queremos que o governo do Estado de Pernambuco, comece a trabalhar nas áreas de mananciais com os trabalhadores desempregados em atividades de proteção ambiental", completa. Além disso, como toda monocultura, a plantação da cana em larga escala diminui a diversidade biológica e empobrece o solo.
Fonte: Agência Brasil de Fato (22/2/2007)
O presidente estadunidense, George W. Bush, desembarcará no Brasil, em 8 de março, entoando a necessidade de ampliar os negócios do etanol (álcool combustível) entre os dois países. Além do conteúdo geopolítico do seu giro pela América do Sul – a tentativa de isolar Hugo Chávez (Venezuela) e recompor a influência estadunidense na região –, Bush apresentará ao presidente Lula uma proposta para colocar o Brasil ainda mais na órbita da economia estadunidense: a criação de um mercado global para o etanol.
Bush está propondo que os Estados Unidos reduzam o consumo de gasolina em 20% até 2017 e sugere uma parceria estratégica com o Brasil neste sentido. A iniciativa animou o governo brasileiro e, de certa forma, está em sintonia com os esforços de ampliar as exportações por meio do agronegócio. Não é de hoje que diplomatas tentam reduzir as barreiras na Organização Mundial do Comércio (OMC) para vender o açúcar e de álcool. Estados Unidos e Brasil possuem as duas maiores empresas produtoras de álcool: ADM e Copersucar, respectivamente.
A idéia da parceria, como era esperado, foi bem recebida pela mídia corporativa e agradou os setores conservadores. Para os Estados Unidos, a expansão do uso do etanol poderia representar um contraponto ainda à dependência do país de combustíveis fósseis. Segundo afirmaram integrantes do governo Bush, seria uma forma de contrabalancear a força política que estão demonstrando países com fartas reservas de petróleo e adversários das políticas estadunidenses, como Venezuela e Irã.
Noves fora o xadrez geopolítico, especialistas ouvidos pelo Brasil de Fato denunciam o custo social e ambiental da expansão da monocultura de cana-de-açúcar - algo que, aliás, remete ao processo colonizatório do país. "O impacto será grande. Estão previstas dezenas de usinas, com destaque para a porção Oeste do Estado de São Paulo e, especialmente no Pontal do Paranapanema, onde as terras são baratas pelo fato de serem griladas", avalia o geógrafo e coordenador do Grupo de Trabalho Desenvolvimento Rural do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (Clacso), Bernardo Mançano Fernandes.
Cultura em expansão
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, entre os anos 2005 e 2006, a área plantada passou de 5,62 para 7,04 milhões de hectares plantados, e a produção, de 420 para 460 toneladas de cana-de-acúcar. Segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (UNICA), a produção da planta aumentará cerca de 50% durante os próximos seis anos. Até o 2012, devem ser construídas mais de 70 usinas por todo o Brasil, sendo a maior parte em São Paulo. Atualmente, existem 363 cadastradas no país. São Paulo aparece com 170, seguido do Paraná, com 29 e Pernambuco e Alagoas, que contabilizam 26 usina cada.
"Historicamente, a produção de açúcar está associada com o trabalho escravo de índios e negros", afirma Plácido Júnior, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco. Segundo dados da Comissão Pastoral do Migrante (CPM), desde 2004 foram 15 óbitos, só no estado de São Paulo. A maioria é de migrantes de Minas Gerais e do Nordeste, quase todas relacionadas ao excesso de trabalho em usinas e canaviais. (Leia mais aqui sobre a Exploração do trabalhador na cultura de cana-de-açúcar)
"Em Pernambuco, 18 famílias controlam toda a produção de cana. Juntas, acumulam 4 bilhões de dólares de dívida pública", denuncia o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco, Plácido Júnior. Para Bernardo Mançano, a territorialização da cana criará uma nova questão agrária. "A luta pela reforma agrária vai se expandir em luta pela defesa da agricultura camponesa e esta em uma luta territorial, para defender as terras do poder destrutivo do agronegócio da cana. Hoje o setor da cana controla cinco milhões de hectares. Poderá dobrar esta área", adverte Mançano.
A monocultura e a manutenção do poder dos grandes empresários do setor em detrimento da agricultura familiar têm tudo para crescer. O interesse dos Estados Unidos pode acarretar também um processo de desnacionalização do setor. Figuras como o fundador da Microsoft, Bill Gates, os donos da Google, Larry Page e Sergey Brin, e o investidor húngaro George Soros estão dispostos a investir pesado nas usinas de cana, de acordo com a Revista Exame.
Mais latifúndios
"Sem dúvidas, com a territorialização da cana, ocorrerá uma intensificação da concentração de terras. Isso vai significar a expropriação de milhares de pequenas propriedades", aponta o geógrafo. Para ele, o poder do agronegócio da cana reúne as vantagens necessárias para sua expansão: cria as regras e controla as políticas da produção. "A única coisa que pode abalar esse processo é a crise econômica do próprio setor sucro-alcooleiro, principalmente em escala internacional. Todavia, acaba de sair de uma crise e se encontra em ascensão com as perspectivas de crescimento dos mercados de biocombustíveis", explica o membro da Clacso, ressaltando que tal setor só pode ser comparado à monocultura de árvores quanto a sua rentabilidade.
O fato é que a força política dos empresários sucroalcooleiros influencia os governos. Segundo Mançano, a expropriação das pequenas propriedades tende ser interpretada como uma etapa natural das transformações da agricultura. "É preciso repensar esse processo, construir leituras que demonstrem as condições expropriatórias e intensamente destrutivas do agronegócio da cana", afirma o geógrafo.
A terceirização da produção de cana-de-acúcar é outro aspecto crítico. Segundo a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, enquanto as usinas antigas também possuem as terras do plantio, as atuais arrendam-nas. "Essas usinas que se instalam, inclusive as estrangeiras, financiadas pelo BNDES com juros baixíssimos, não compram terras, só a planta industrial. Há pequenos, médios e grandes fornecedores", diz a socióloga. Segundo Aparecida, é comum no Estado de São Paulo, ao lado do fornecedor proprietário, a figura do arrendatário, responsável pela produção da cana-de-açúcar.
Bernardo Mançano acredita que a terceirização das terras pode contribuir para a intensificação da concentração nas mãos dos grandes latifundiários, mas que as velhas oligarquias estão deslocadas do processo de formação do agronegócio. "Elas podem persistir na pecuária, mas não na cana, podem ganhar com o arrendamento da terra, mas isto não lhes dá mais poder, apenas garante sua manutenção", explica o membro da Clacso.
Meio Ambiente
Já os impactos ao meio ambiente estão sendo ignorados pelos que defendem a substituição do peltróleo pelo álcool combustível como medida para reduzir o aquecimento global. Um dos processos de produção mais comuns é a queima da palha do canavial, para facilitar o corte manual e aumentar a produtividade do cortador de cana. Essa prática reduz custos de transporte e aumenta a eficiência das moendas nas usinas. No entanto, a queima libera gás carbônico, ozônio, gases de nitrogênio e de enxofre (responsáveis pelas chuvas ácidas) e provoca perdas significativas de nutrientes para as plantas, além de facilitar o aparecimento de ervas daninhas e a erosão. Como opção às queimadas, responsáveis por boa parte das mortes dos cortadores por meio da inalação de gazes cancerígenos, a mecanização pode ser extremamente prejudicial ao solo, pois o comprime, não permitindo a entrada de oxigênio.
Os efluentes do processo industrial da cana-de-açúcar também prejudicam a natureza. Sem o devido tratamento, os dejetos lançados nos rios comprometem a sobrevivência de diversos seres aquáticos "Hoje, nem os mananciais dos rios preservados", atesta Aristides dos Santos, da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape). Ele afirma que praticamente toda a Mata Atlântica nordestina foi dizimada pelos donos dos canaviais. "Na entresafra, queremos que o governo do Estado de Pernambuco, comece a trabalhar nas áreas de mananciais com os trabalhadores desempregados em atividades de proteção ambiental", completa. Além disso, como toda monocultura, a plantação da cana em larga escala diminui a diversidade biológica e empobrece o solo.
Fonte: Agência Brasil de Fato (22/2/2007)
Etanol: combustível da exploração do trabalho no campo
Eduardo Sales de Lima, da redação.
Crescem os negócios e diminuem os direitos. O argumento dos empresários e dos países ricos para o aumento da produção do etanol é o de aliviar, de uma só vez, dois grandes males do século 21: a escassez do petróleo e o efeito estufa. Além das contradições deste discurso (leia mais aqui), essa proposta não parece nada "sustentável" do ponto de vista da situação dos "corta-cana" - trabalhadores dos canaviais. "Historicamente, a produção de açúcar está associada com o trabalho escravo de índios e negros", afirma Plácido Júnior, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco.
A senhora Maria Neusa Borges, de 54 anos, faleceu no dia 24 de julho e trabalhava como "corta-cana" na Fazenda Santa Cruz, em Ariranha, São Paulo. A causa de sua morte foi dada como desconhecida. As jornadas extenuantes dos cortadores de cana também são ignoradas pela mídia corporativa, que aderiu à animação com o etanol.
Segundo dados da Comissão Pastoral do Migrante (CPM), desde 2004 foram 15 óbitos, só no estado de São Paulo. A maioria é de migrantes de Minas Gerais e do Nordeste, quase todas relacionadas ao excesso de trabalho em usinas e canaviais.
Jornadas extenuantes
O salário de um cortador de cana gira em torno de R$ 300 a R$ 400, dependendo da região do Brasil. Ganha-se por produção. "Trabalham de oito a nove horas diárias, intensivamente, de segunda a sábado. Perdem 6 quilos no final da safra e são obrigados a cortar, no mínimo, 12 toneladas de cana. A cada 10 toneladas, são 9.700 golpes sob um calor intenso e utilizando calça comprida, caneleira, sapatão, luvas, blusa de manga comprida e boné com lenço", relata a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva.
Ao lado do excesso de esforço físico, que pode causar paradas respiratória e cardiovasculares, a inalação de gás cancerígeno liberado quando se corta a cana queimada é outro fator que contribui para os óbitos. O corte manual é muito barato porque o lucro dos empresários é resultado, entre outros fatores, da exploração do trabalhador.
Segundo Aparício Quirino Salomão, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas, o que dificulta o processo de luta dos trabalhadores é o fato de a grande maioria ser formada por migrantes safristas (temporários) que não se vinculam aos sindicatos e vivem segmentados estrategicamente, por mando dos patrões. "Alojamento de maranhense só tem maranhense, de paraibano só paraibano", completa.
Para a socióloga Maria Aparecida, esses casos estão bastante próximos daqueles descritos por Marx em "O Capital", referentes às indústrias da Inglaterra no século XIX. Em seu artigo, "Em busca do passado para conhecer o presente - trabalhadores migrantes na região de Ribeirão Preto", ela faz a comparação: "Muitas vidas foram ceifadas em função das longas jornadas e das péssimas condições de trabalho. Na expressão marxiana, o capital era o vampiro que se alimentava do sangue dos trabalhadores", cita a professora.
Salário por produção
Segundo o Ministério Público do Trabalho de Campinas, existem, aproximadamente, 148 procedimentos ativos na Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região, envolvendo usinas de cana-de-açúcar. Mais de 140 empresas foram fiscalizadas e autuadas em 2006, em cidades como Piracicaba, Ribeirão Preto e Bauru. A principal batalha dos Ministério Público é acabar com o trabalho por produção.
Os sindicalistas apóiam esse movimento. "A posição da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agrcultura (Contag) é que o trabalhador deveria ter um salário justo e atuasse dentro de uma quantidade de esforço que não prejudicasse sua saúde", diz Aristides dos Santos, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape), que completa: "aqui no Nordeste, em vez do período de corte de cana ser de 5 ou 6 meses, ele é de três. Essa exploração é uma forma de as usinas moerem uma quantidade maior de cana e usarem um contigente menor de trabalhadores. Os empresários roubam até no peso".
Fonte: Agência Brasil de Fato (22/2/2007)
Crescem os negócios e diminuem os direitos. O argumento dos empresários e dos países ricos para o aumento da produção do etanol é o de aliviar, de uma só vez, dois grandes males do século 21: a escassez do petróleo e o efeito estufa. Além das contradições deste discurso (leia mais aqui), essa proposta não parece nada "sustentável" do ponto de vista da situação dos "corta-cana" - trabalhadores dos canaviais. "Historicamente, a produção de açúcar está associada com o trabalho escravo de índios e negros", afirma Plácido Júnior, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de Pernambuco.
A senhora Maria Neusa Borges, de 54 anos, faleceu no dia 24 de julho e trabalhava como "corta-cana" na Fazenda Santa Cruz, em Ariranha, São Paulo. A causa de sua morte foi dada como desconhecida. As jornadas extenuantes dos cortadores de cana também são ignoradas pela mídia corporativa, que aderiu à animação com o etanol.
Segundo dados da Comissão Pastoral do Migrante (CPM), desde 2004 foram 15 óbitos, só no estado de São Paulo. A maioria é de migrantes de Minas Gerais e do Nordeste, quase todas relacionadas ao excesso de trabalho em usinas e canaviais.
Jornadas extenuantes
O salário de um cortador de cana gira em torno de R$ 300 a R$ 400, dependendo da região do Brasil. Ganha-se por produção. "Trabalham de oito a nove horas diárias, intensivamente, de segunda a sábado. Perdem 6 quilos no final da safra e são obrigados a cortar, no mínimo, 12 toneladas de cana. A cada 10 toneladas, são 9.700 golpes sob um calor intenso e utilizando calça comprida, caneleira, sapatão, luvas, blusa de manga comprida e boné com lenço", relata a socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva.
Ao lado do excesso de esforço físico, que pode causar paradas respiratória e cardiovasculares, a inalação de gás cancerígeno liberado quando se corta a cana queimada é outro fator que contribui para os óbitos. O corte manual é muito barato porque o lucro dos empresários é resultado, entre outros fatores, da exploração do trabalhador.
Segundo Aparício Quirino Salomão, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) de Campinas, o que dificulta o processo de luta dos trabalhadores é o fato de a grande maioria ser formada por migrantes safristas (temporários) que não se vinculam aos sindicatos e vivem segmentados estrategicamente, por mando dos patrões. "Alojamento de maranhense só tem maranhense, de paraibano só paraibano", completa.
Para a socióloga Maria Aparecida, esses casos estão bastante próximos daqueles descritos por Marx em "O Capital", referentes às indústrias da Inglaterra no século XIX. Em seu artigo, "Em busca do passado para conhecer o presente - trabalhadores migrantes na região de Ribeirão Preto", ela faz a comparação: "Muitas vidas foram ceifadas em função das longas jornadas e das péssimas condições de trabalho. Na expressão marxiana, o capital era o vampiro que se alimentava do sangue dos trabalhadores", cita a professora.
Salário por produção
Segundo o Ministério Público do Trabalho de Campinas, existem, aproximadamente, 148 procedimentos ativos na Procuradoria Regional do Trabalho da 15ª Região, envolvendo usinas de cana-de-açúcar. Mais de 140 empresas foram fiscalizadas e autuadas em 2006, em cidades como Piracicaba, Ribeirão Preto e Bauru. A principal batalha dos Ministério Público é acabar com o trabalho por produção.
Os sindicalistas apóiam esse movimento. "A posição da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agrcultura (Contag) é que o trabalhador deveria ter um salário justo e atuasse dentro de uma quantidade de esforço que não prejudicasse sua saúde", diz Aristides dos Santos, presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape), que completa: "aqui no Nordeste, em vez do período de corte de cana ser de 5 ou 6 meses, ele é de três. Essa exploração é uma forma de as usinas moerem uma quantidade maior de cana e usarem um contigente menor de trabalhadores. Os empresários roubam até no peso".
Fonte: Agência Brasil de Fato (22/2/2007)
sexta-feira, 30 de março de 2007
Usina Moema é primeira da região iniciar moagem
A Usina Moema, localizada em Orindiúva, foi a primeira da região a iniciar a moagem de cana-de-açúcar este ano. Nesta safra, que começou anteontem e deve terminar em 30 de novembro, a usina pretende moer 4,7 milhões de toneladas de cana, 6,8% mais do que no ano anterior.
De acordo com o coordenador da produção da usina, Antônio Furlaneto Júnior, serão produzidas 6,5 milhões de sacas de 50 quilos de açúcar e 205 milhões de litros de álcool. Segundo ele, a safra começou antes de abril devido ao grande volume de cana na área agrícola. “Não queremos que sobre cana sem esmagar após o fim da safra”, afirmou.
Até o fim do ano, a usina Moema deve gerar 6 mil empregos diretos. Juntas, as três usinas do grupo chegam a empregar quase 10 mil pessoas. Além da unidade em Orindiúva, o grupo Moema possui a usina Vertente, em Guaraci, e a Itapagipe, localizada em Minas Gerais.
A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) ainda não tem estimativas da produção total nesta safra. A entidade realiza levantamento via satélite para saber da produção total das usinas.
Na safra 2007/2008, no entanto, a Unica prevê a criação de mais 17 usinas na região Centro-Sul do Brasil, 10 no Estado de São Paulo.
A Biocana (Associação de Produtores de Açúcar, Álcool e Energia) espera divulgar números da safra na próxima semana. A expectativa, segundo Luciano Sanches, diretor da entidade, é que mais de 120 milhões de toneladas sejam esmagadas nas usinas do oeste e noroeste paulista.
‘Boom’ da cana é inevitável
Para o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, João Sampaio, o crescimento das plantações de cana é inevitável. Segundo ele, no entanto, o governo estadual tenta criar alternativas para que essa expansão seja ordenada.
“Não podemos evitar que o produtor procure uma forma de aumentar sua renda, mas devemos orientá-lo sobre as vantagens de outras culturas”, disse.
Ele apresenta como exemplo a integração de lavouras e pecuária, com confinamento de bovinos, em Barretos. “O produtor não pode ser imprudente e apostar em uma única cultura.”
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto (30/3/2007)
De acordo com o coordenador da produção da usina, Antônio Furlaneto Júnior, serão produzidas 6,5 milhões de sacas de 50 quilos de açúcar e 205 milhões de litros de álcool. Segundo ele, a safra começou antes de abril devido ao grande volume de cana na área agrícola. “Não queremos que sobre cana sem esmagar após o fim da safra”, afirmou.
Até o fim do ano, a usina Moema deve gerar 6 mil empregos diretos. Juntas, as três usinas do grupo chegam a empregar quase 10 mil pessoas. Além da unidade em Orindiúva, o grupo Moema possui a usina Vertente, em Guaraci, e a Itapagipe, localizada em Minas Gerais.
A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) ainda não tem estimativas da produção total nesta safra. A entidade realiza levantamento via satélite para saber da produção total das usinas.
Na safra 2007/2008, no entanto, a Unica prevê a criação de mais 17 usinas na região Centro-Sul do Brasil, 10 no Estado de São Paulo.
A Biocana (Associação de Produtores de Açúcar, Álcool e Energia) espera divulgar números da safra na próxima semana. A expectativa, segundo Luciano Sanches, diretor da entidade, é que mais de 120 milhões de toneladas sejam esmagadas nas usinas do oeste e noroeste paulista.
‘Boom’ da cana é inevitável
Para o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, João Sampaio, o crescimento das plantações de cana é inevitável. Segundo ele, no entanto, o governo estadual tenta criar alternativas para que essa expansão seja ordenada.
“Não podemos evitar que o produtor procure uma forma de aumentar sua renda, mas devemos orientá-lo sobre as vantagens de outras culturas”, disse.
Ele apresenta como exemplo a integração de lavouras e pecuária, com confinamento de bovinos, em Barretos. “O produtor não pode ser imprudente e apostar em uma única cultura.”
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto (30/3/2007)
domingo, 25 de março de 2007
Usina é obrigada a transferir 18 cortadores de cana para hotel
A Usina Santa Isabel, de Novo Horizonte, foi obrigada, no fim da tarde de ontem, a transferir 18 cortadores de cana, duas mulheres e três crianças migrantes de alojamentos para um hotel da cidade. A exigência foi da fiscalização conjunta feita pelo Ministério Público do Trabalho e Ministério do Trabalho e Emprego.
Segundo o procurador Aparício Querino Salomão, o MPT vai exigir que a usina providencie imóvel em boas condições para todos os seus trabalhadores migrantes, que segundo ele são cerca de 600. Durante a ação, a empresa foi notificada a comparecer hoje na Subdelegacia do Trabalho em Rio Preto, às 9h, quando o procurador irá propor a assinatura de um TAC (Termo de Ajuste de Conduta), pelo qual a usina assumirá a responsabilidade pelas moradias.
Caso a Santa Isabel se negue a assinar o termo, o procurador disse que vai acionar a Justiça para que a obrigue a regularizar a situação.
Os trabalhadores estavam divididos em quatro alojamentos, considerados em péssimas condições. Uma casa de dois cômodos comportava sete cortadores. Os outros três alojamentos ficavam numa espécie de cortiço. Segundo Salomão, os migrantes transferidos vieram da Paraíba e de Pernambuco. Ele disse que eles teriam sido aliciados em seus Estados por um empreiteiro de mão-de-obra, que teria providenciado os imóveis e colchões. Os trabalhadores teriam pago R$ 190 pelo transporte e R$ 65 pelo colchão, que, segundo o procurador, é totalmente inadequado. Já o aluguel seria dividido com a usina. A empresa também foi notificada a apresentar documentação referente a irregularidades encontradas nas lavouras de cana, como falta de reposição de equipamentos individuais de proteção gastos e problemas na medição da metragem, que acarretaria menor remuneração.
Empresa é notificada
Segundo o Ministério Público do Trabalho, situação similar foi encontrada em dois imóveis com trabalhadores da Usina São José da Estiva, em Novo Horizonte. As condições das moradias estavam um pouco melhores, por isso não houve interdição, apesar dos trabalhadores dormirem no chão, segundo o órgão.
A empresa foi notificada a comparecer na SDT hoje. Foi encontrada ainda precariedade em alojamentos de migrantes que atuam nas frentes da Usina Moema, de Orindiúva. As moradias estão situadas em Icém.
O MPT também vai propor assinatura de acordo para fazer as adequações necessárias em todas as moradias dos trabalhadores migrantes dessas duas usinas. Irregularidades referentes ao descumprimento da Norma Regulamentadora 31 também foram encontradas nas frentes das duas empresas, como desrespeito a pausas.
Usina diz que acompanha
A Usina Santa Isabel informou ontem que faz acompanhamento das condições das moradias dos cortadores migrantes. Segundo o encarregado do departamento pessoal, Egídio Garcia Ubda, a empresa mantém faxineira para atender as casas e também faz compra de materiais de limpeza.
Ele também informou que a usina está cumprindo com quase 100% da NR 31, que prevê melhores condições de trabalho nas lavouras. Ele disse que a falta de reposição de EPIs deve ter ocorrido por esquecimento de fiscais. Já o gerente de administração e de controladoria da Usina Moema, Edson Vitor Leão, negou que houvesse irregularidades nos imóveis com empregados da empresa. Segundo ele, há inspeção das condições dos imóveis e fornecimento gratuito de colchões a migrantes. A reportagem não conseguiu entrar em contato com a São José da Estiva.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto (12/7/2006)
Segundo o procurador Aparício Querino Salomão, o MPT vai exigir que a usina providencie imóvel em boas condições para todos os seus trabalhadores migrantes, que segundo ele são cerca de 600. Durante a ação, a empresa foi notificada a comparecer hoje na Subdelegacia do Trabalho em Rio Preto, às 9h, quando o procurador irá propor a assinatura de um TAC (Termo de Ajuste de Conduta), pelo qual a usina assumirá a responsabilidade pelas moradias.
Caso a Santa Isabel se negue a assinar o termo, o procurador disse que vai acionar a Justiça para que a obrigue a regularizar a situação.
Os trabalhadores estavam divididos em quatro alojamentos, considerados em péssimas condições. Uma casa de dois cômodos comportava sete cortadores. Os outros três alojamentos ficavam numa espécie de cortiço. Segundo Salomão, os migrantes transferidos vieram da Paraíba e de Pernambuco. Ele disse que eles teriam sido aliciados em seus Estados por um empreiteiro de mão-de-obra, que teria providenciado os imóveis e colchões. Os trabalhadores teriam pago R$ 190 pelo transporte e R$ 65 pelo colchão, que, segundo o procurador, é totalmente inadequado. Já o aluguel seria dividido com a usina. A empresa também foi notificada a apresentar documentação referente a irregularidades encontradas nas lavouras de cana, como falta de reposição de equipamentos individuais de proteção gastos e problemas na medição da metragem, que acarretaria menor remuneração.
Empresa é notificada
Segundo o Ministério Público do Trabalho, situação similar foi encontrada em dois imóveis com trabalhadores da Usina São José da Estiva, em Novo Horizonte. As condições das moradias estavam um pouco melhores, por isso não houve interdição, apesar dos trabalhadores dormirem no chão, segundo o órgão.
A empresa foi notificada a comparecer na SDT hoje. Foi encontrada ainda precariedade em alojamentos de migrantes que atuam nas frentes da Usina Moema, de Orindiúva. As moradias estão situadas em Icém.
O MPT também vai propor assinatura de acordo para fazer as adequações necessárias em todas as moradias dos trabalhadores migrantes dessas duas usinas. Irregularidades referentes ao descumprimento da Norma Regulamentadora 31 também foram encontradas nas frentes das duas empresas, como desrespeito a pausas.
Usina diz que acompanha
A Usina Santa Isabel informou ontem que faz acompanhamento das condições das moradias dos cortadores migrantes. Segundo o encarregado do departamento pessoal, Egídio Garcia Ubda, a empresa mantém faxineira para atender as casas e também faz compra de materiais de limpeza.
Ele também informou que a usina está cumprindo com quase 100% da NR 31, que prevê melhores condições de trabalho nas lavouras. Ele disse que a falta de reposição de EPIs deve ter ocorrido por esquecimento de fiscais. Já o gerente de administração e de controladoria da Usina Moema, Edson Vitor Leão, negou que houvesse irregularidades nos imóveis com empregados da empresa. Segundo ele, há inspeção das condições dos imóveis e fornecimento gratuito de colchões a migrantes. A reportagem não conseguiu entrar em contato com a São José da Estiva.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto (12/7/2006)
Fiscalização em usinas encontra trabalhador em situação precária
Falta de pausas para descanso, de fornecimento de água fresca e de reposição de equipamentos de proteção já gastos; inexistência de sanitários e local adequado para refeições; motoristas sem registro, contratação e transporte irregulares.
Essas foram algumas situações encontradas ontem no primeiro dia de diligências do Ministério Público do Trabalho e do Grupo Rural Móvel do Ministério do Trabalho na região. Se não bastasse, uma denúncia de configuração de trabalho escravo começa a ser investigada hoje pelos procuradores, num município próximo a Rio Preto.
As equipes estão na região desde segunda-feira para fiscalizar o cumprimento da Norma Regulamentadora 31, que prevê melhores condições ao trabalho no campo. Os representantes dos órgãos estão divididos em três equipes.
Ontem, a equipe comandada pelo coordenador do grupo móvel, Roberto Figueiredo, notificou as Usinas Vale, de Onda Verde, e CBAA, do Grupo J. Pessoa, localizada em Icém, para comparecer amanhã no Ministério do Trabalho em Rio Preto, a fim de apresentar a documentação necessária para averiguação dos casos.
As usinas devem sofrer autuações em vários itens, inclusive trabalhistas. Cada auto equivale a multa que varia de R$ 3 a R$ 4 mil, dependendo da infração.
Segundo Figueiredo, há suspeita de contratação irregular pelo grupo J. Pessoa. As contratações para lavouras da CBAA seriam pela Santana Agroindústria, de Fronteira (MG), onde a remuneração é mais baixa que a paulista. O gerente da área agrícola da CBAA, Luiz Foresti, disse que a área onde os trabalhadores atuam é arrendada e explorada pela Santana, que apenas fornece cana para a CBAA. As duas empresas, porém, pertencem ao grupo J. Pessoa.
Situação é ‘gravíssima’
O auditor fiscal e engenheiro de segurança do Ministério do Trabalho Antônio Carlos Avancini disse que o cortador deve ser contratado pela empresa onde o trabalho é exercido. Os fiscais solicitaram documentação referente ao dissídio coletivo da categoria para averiguar qual a contratante dos cortadores da CBAA.
Ainda nesta usina, um ônibus ficou retido por falta de autorização para transporte de trabalhadores.
O mesmo ocorreu com outro ônibus em lavoura da Usina Vale, que carregava junto dos trabalhadores combustível em embalagem reutilizada de agrotóxico. A procuradora do MPT, Andréa Albertinase, considerou gravíssima a situação na região e disse que, caso as empresas se recusem a assinar um TAC (Termo de Ajuste de Conduta), vai acionar a Justiça para que as obrigue a fazer as adequações necessárias. A ação termina sexta.
Carta motiva investigação
Uma carta de um cortador migrante da Bahia ao Ministério Público do Trabalho é o ponto de partida da investigação que deve começar hoje, sobre suspeita de configuração de trabalho escravo num município da região. A carta chegou às mãos dos procuradores em maio de 2005. Nela, o trabalhador denuncia a prática de aliciamento a migrantes e conta o que pode ser caracterizado como trabalho escravo.
Os migrantes seriam aliciados por empreiteiros de mão-de-obra nas suas cidades de origem e trazidos clandestinamente à região, com promessa de emprego garantido. Ao chegar, eles seriam acomodados em imóveis localizados em bairros periféricos, tendo de arcar com gastos de transporte, moradia e alimentação, além de serem obrigados a fazer suas compras num determinado supermercado.
O denunciante pediu sigilo aos procuradores.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (11/7/2006)
Essas foram algumas situações encontradas ontem no primeiro dia de diligências do Ministério Público do Trabalho e do Grupo Rural Móvel do Ministério do Trabalho na região. Se não bastasse, uma denúncia de configuração de trabalho escravo começa a ser investigada hoje pelos procuradores, num município próximo a Rio Preto.
As equipes estão na região desde segunda-feira para fiscalizar o cumprimento da Norma Regulamentadora 31, que prevê melhores condições ao trabalho no campo. Os representantes dos órgãos estão divididos em três equipes.
Ontem, a equipe comandada pelo coordenador do grupo móvel, Roberto Figueiredo, notificou as Usinas Vale, de Onda Verde, e CBAA, do Grupo J. Pessoa, localizada em Icém, para comparecer amanhã no Ministério do Trabalho em Rio Preto, a fim de apresentar a documentação necessária para averiguação dos casos.
As usinas devem sofrer autuações em vários itens, inclusive trabalhistas. Cada auto equivale a multa que varia de R$ 3 a R$ 4 mil, dependendo da infração.
Segundo Figueiredo, há suspeita de contratação irregular pelo grupo J. Pessoa. As contratações para lavouras da CBAA seriam pela Santana Agroindústria, de Fronteira (MG), onde a remuneração é mais baixa que a paulista. O gerente da área agrícola da CBAA, Luiz Foresti, disse que a área onde os trabalhadores atuam é arrendada e explorada pela Santana, que apenas fornece cana para a CBAA. As duas empresas, porém, pertencem ao grupo J. Pessoa.
Situação é ‘gravíssima’
O auditor fiscal e engenheiro de segurança do Ministério do Trabalho Antônio Carlos Avancini disse que o cortador deve ser contratado pela empresa onde o trabalho é exercido. Os fiscais solicitaram documentação referente ao dissídio coletivo da categoria para averiguar qual a contratante dos cortadores da CBAA.
Ainda nesta usina, um ônibus ficou retido por falta de autorização para transporte de trabalhadores.
O mesmo ocorreu com outro ônibus em lavoura da Usina Vale, que carregava junto dos trabalhadores combustível em embalagem reutilizada de agrotóxico. A procuradora do MPT, Andréa Albertinase, considerou gravíssima a situação na região e disse que, caso as empresas se recusem a assinar um TAC (Termo de Ajuste de Conduta), vai acionar a Justiça para que as obrigue a fazer as adequações necessárias. A ação termina sexta.
Carta motiva investigação
Uma carta de um cortador migrante da Bahia ao Ministério Público do Trabalho é o ponto de partida da investigação que deve começar hoje, sobre suspeita de configuração de trabalho escravo num município da região. A carta chegou às mãos dos procuradores em maio de 2005. Nela, o trabalhador denuncia a prática de aliciamento a migrantes e conta o que pode ser caracterizado como trabalho escravo.
Os migrantes seriam aliciados por empreiteiros de mão-de-obra nas suas cidades de origem e trazidos clandestinamente à região, com promessa de emprego garantido. Ao chegar, eles seriam acomodados em imóveis localizados em bairros periféricos, tendo de arcar com gastos de transporte, moradia e alimentação, além de serem obrigados a fazer suas compras num determinado supermercado.
O denunciante pediu sigilo aos procuradores.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (11/7/2006)
Ministério do Trabalho lavra 84 autos de infração contra 6 usinas
O Ministério do Trabalho e Emprego lavrou ontem 84 autos de infração contra seis usinas e um fornecedor de cana da região. O balanço, parcial, é resultado das diligências feitas na terça e quarta-feira em lavouras, pelo MTE e Ministério Público do Trabalho. A Santa Isabel, convocada pelo MPT para assinar acordo pelo qual se responsabilizaria por moradias de migrantes, não compareceu à audiência (Leia abaixo).
Segundo Roberto Figueiredo, coordenador do Grupo Rural Móvel do MTE, a maioria dos autos corresponde a infrações ligadas à saúde e segurança, como falta de reposição de equipamentos de proteção e de sanitários. Também foram lavrados autos referentes à legislação trabalhista, como excesso de jornada e desrespeito a uma hora de pausa para refeição. Figueiredo não soube dizer qual receita as multas vão gerar. Os valores vão de R$ 2 mil a R$ 4 mil por infração. Ele disse que uma nova fiscalização deve ser feita até outubro, em razão da situação crítica encontrada. Foram autuadas a Moema, Petribu, São José da Estiva, Vale, CBAA e Alcoeste.
Indústrias assinam termo
Quatro usinas se comprometeram a melhorar as condições de trabalho e em alojamentos ontem, por meio de assinatura de TACs (termos de ajuste de conduta) com o Ministério Público do Trabalho.
As usinas Vale, de Onda Verde, e Moema, de Orindiúva, assinaram TAC para adequações no meio ambiente de trabalho dos cortadores. A Petribu, de Sebastianópolis de Sul, e São José da Estiva, de Novo Horizonte, para responsabilização pelas condições em alojamentos de migrantes.
Segundo o procurador Aparício Querino Salomão, as empresas têm prazo de 30 dias para regularizar a situação. Caso contrário, estarão sujeitas a multa diária de R$ 1 mil. A Moema e Vale se negaram a assumir as moradias, mas receberam prazo de cinco dias para estudar um acordo. Ele disse que hoje deve propor TAC de meio ambiente à Petribu e Vale.
Empresa é acionada de novo
A Usina Santa Isabel, de Novo Horizonte, recebeu nova notificação ontem, para comparecer hoje à Subdelegacia doTrabalho em Rio Preto, para assinar um TAC responsabilizando-se por moradias de cortadores migrantes. Depois de ter transferido um grupo de 23 migrantes de alojamentos precários para um hotel, na quarta, a usina não compareceu à audiência marcada para ontem pelo MPT.
Procurado pela reportagem, o chefe do departamento pessoal da empresa, Egídio Garcia Abda, não retornou às ligações. Ontem, os trabalhadores ainda estavam no hotel. A Usina Vale disse que a responsabilização pelas moradias de migrantes é equivocada, uma vez que são locadas pelos próprios trabalhadores, que são sazonais. Já o advogado da Moema, Valdemar Fernandes, disse que os cortadores já têm endereço fixo na cidade quando são contratados.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (13/7/2006)
Segundo Roberto Figueiredo, coordenador do Grupo Rural Móvel do MTE, a maioria dos autos corresponde a infrações ligadas à saúde e segurança, como falta de reposição de equipamentos de proteção e de sanitários. Também foram lavrados autos referentes à legislação trabalhista, como excesso de jornada e desrespeito a uma hora de pausa para refeição. Figueiredo não soube dizer qual receita as multas vão gerar. Os valores vão de R$ 2 mil a R$ 4 mil por infração. Ele disse que uma nova fiscalização deve ser feita até outubro, em razão da situação crítica encontrada. Foram autuadas a Moema, Petribu, São José da Estiva, Vale, CBAA e Alcoeste.
Indústrias assinam termo
Quatro usinas se comprometeram a melhorar as condições de trabalho e em alojamentos ontem, por meio de assinatura de TACs (termos de ajuste de conduta) com o Ministério Público do Trabalho.
As usinas Vale, de Onda Verde, e Moema, de Orindiúva, assinaram TAC para adequações no meio ambiente de trabalho dos cortadores. A Petribu, de Sebastianópolis de Sul, e São José da Estiva, de Novo Horizonte, para responsabilização pelas condições em alojamentos de migrantes.
Segundo o procurador Aparício Querino Salomão, as empresas têm prazo de 30 dias para regularizar a situação. Caso contrário, estarão sujeitas a multa diária de R$ 1 mil. A Moema e Vale se negaram a assumir as moradias, mas receberam prazo de cinco dias para estudar um acordo. Ele disse que hoje deve propor TAC de meio ambiente à Petribu e Vale.
Empresa é acionada de novo
A Usina Santa Isabel, de Novo Horizonte, recebeu nova notificação ontem, para comparecer hoje à Subdelegacia doTrabalho em Rio Preto, para assinar um TAC responsabilizando-se por moradias de cortadores migrantes. Depois de ter transferido um grupo de 23 migrantes de alojamentos precários para um hotel, na quarta, a usina não compareceu à audiência marcada para ontem pelo MPT.
Procurado pela reportagem, o chefe do departamento pessoal da empresa, Egídio Garcia Abda, não retornou às ligações. Ontem, os trabalhadores ainda estavam no hotel. A Usina Vale disse que a responsabilização pelas moradias de migrantes é equivocada, uma vez que são locadas pelos próprios trabalhadores, que são sazonais. Já o advogado da Moema, Valdemar Fernandes, disse que os cortadores já têm endereço fixo na cidade quando são contratados.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (13/7/2006)
Sufoco ambiental
O curador do Meio Ambiente de Catanduva, promotor de justiça, José Carlos Rodrigues, se reuniu na manhã de ontem com representantes de agroindústrias de açúcar e álcool da região para discutir mecanismos de que elas dispõem para prevenção e combate a queimadas.
Na tarde de quarta-feira um grande incêndio atingiu o canavial da usina Colombo, em Pindorama. Em pouco mais de quatro horas, 562 hectares de cana queimaram. Áreas de preservação permanente, mata ciliar e reflorestamento foram destruídas.
Segundo Rodrigues, há três anos a promotoria se reúne com o setor para adoção de metas que levem à adequação das empresas.
“Estou sendo informado sobre a estrutura das empresas. Pareceres técnicos vão avaliar se elas estão ou não preparadas para o problema”, disse o promotor.
O combate ao incêndio em Pindorama, conforme informações da Colombo, mobilizou 13 caminhões-pipa do Corpo de Bombeiros. A empresa justifica que o vento e a proporção que as chamas tomaram impossibilitaram controlar a situação.
Contudo, o número de veículos enviados ao local é o mesmo que dizer que cada um tentou controlar o fogo em área equivalente a cerca de 45 campos de futebol.
A empresa não acionou o Corpo de Bombeiros para ajudar. Ela afirma que a corporação não dispõe de estrutura para combate a incêndio em canavial.
“Os caminhões do Corpo de Bombeiros não foram feitos para canavial e sim para cidade. A única coisa que os bombeiros poderiam fazer seria observar nosso trabalho”, disse o encarregado de planejamento agrícola da Colombo, Natalino Aparecido da Cruz.
O comandante dos bombeiros da região, capitão Humberto Chirotori, afirma que os veículos vão ao local, mas precisam da ajuda das usinas. “Temos apenas uma equipe por dia. Identificamos as prioridades e prestamos atendimento, primeiro, para os casos que envolvam riscos de morte.”
Polícia vistoria área destruída
A Polícia Ambiental de Catanduva permaneceu todo o dia de ontem analisando as áreas destruídas pelo incêndio ocorrido na quarta-feira na vizinha cidade de Pindorama.
Duas equipes percorreram desde a extensão de plantação de cana até as áreas de matas nativas, reflorestamento e de preservação permanente.
De acordo com o tenente Cassius José de Oliveira, comandante do pelotão da Polícia Ambiental de Catanduva, o “estrago foi grande”. Por esse motivo, um termo circunstanciado foi elaborado.
Até o final da edição os prejuízos ao meio ambiente ainda não haviam sido contabilizados.
“Vamos continuar o trabalho até verificarmos todos os locais que foram atingidos e ver se animais também morreram por causa do incêndio”, disse o policial militar.
O promotor José Carlos Rodrigues, afirma que toda a área de preservação permanente, mata ciliar e reflorestamento destruída quarta-feira terá de ser recuperada pela Colombo.
“Não importa se o incêndio foi ou não criminoso. A empresa será acionada para recuperação do meio ambiente.”
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (17/8/2006)
Na tarde de quarta-feira um grande incêndio atingiu o canavial da usina Colombo, em Pindorama. Em pouco mais de quatro horas, 562 hectares de cana queimaram. Áreas de preservação permanente, mata ciliar e reflorestamento foram destruídas.
Segundo Rodrigues, há três anos a promotoria se reúne com o setor para adoção de metas que levem à adequação das empresas.
“Estou sendo informado sobre a estrutura das empresas. Pareceres técnicos vão avaliar se elas estão ou não preparadas para o problema”, disse o promotor.
O combate ao incêndio em Pindorama, conforme informações da Colombo, mobilizou 13 caminhões-pipa do Corpo de Bombeiros. A empresa justifica que o vento e a proporção que as chamas tomaram impossibilitaram controlar a situação.
Contudo, o número de veículos enviados ao local é o mesmo que dizer que cada um tentou controlar o fogo em área equivalente a cerca de 45 campos de futebol.
A empresa não acionou o Corpo de Bombeiros para ajudar. Ela afirma que a corporação não dispõe de estrutura para combate a incêndio em canavial.
“Os caminhões do Corpo de Bombeiros não foram feitos para canavial e sim para cidade. A única coisa que os bombeiros poderiam fazer seria observar nosso trabalho”, disse o encarregado de planejamento agrícola da Colombo, Natalino Aparecido da Cruz.
O comandante dos bombeiros da região, capitão Humberto Chirotori, afirma que os veículos vão ao local, mas precisam da ajuda das usinas. “Temos apenas uma equipe por dia. Identificamos as prioridades e prestamos atendimento, primeiro, para os casos que envolvam riscos de morte.”
Polícia vistoria área destruída
A Polícia Ambiental de Catanduva permaneceu todo o dia de ontem analisando as áreas destruídas pelo incêndio ocorrido na quarta-feira na vizinha cidade de Pindorama.
Duas equipes percorreram desde a extensão de plantação de cana até as áreas de matas nativas, reflorestamento e de preservação permanente.
De acordo com o tenente Cassius José de Oliveira, comandante do pelotão da Polícia Ambiental de Catanduva, o “estrago foi grande”. Por esse motivo, um termo circunstanciado foi elaborado.
Até o final da edição os prejuízos ao meio ambiente ainda não haviam sido contabilizados.
“Vamos continuar o trabalho até verificarmos todos os locais que foram atingidos e ver se animais também morreram por causa do incêndio”, disse o policial militar.
O promotor José Carlos Rodrigues, afirma que toda a área de preservação permanente, mata ciliar e reflorestamento destruída quarta-feira terá de ser recuperada pela Colombo.
“Não importa se o incêndio foi ou não criminoso. A empresa será acionada para recuperação do meio ambiente.”
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (17/8/2006)
Doação de usinas para campanha de deputados aumenta 390%
Os usineiros da região de Rio Preto têm investido forte na política. Nas últimas eleições, o setor injetou R$ 1,53 milhão em candidatos a deputado, segundo dados divulgados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O montante é 390% maior do que em 2002, quando as usinas despejaram na campanha R$ 313,6 mil (valor corrigido pela inflação do período).
Para o cientista político da Unesp de Marília Paulo Cunha, o aumento da participação do setor sucroalcoleiro reflete o crescimento econômico das usinas nos últimos quatro anos. “Como o Congresso e a Assembléia Legislativa decidem boa parte das políticas agrícolas, é estratégico o apoio dos deputados”, diz.
Dos deputados da região, a maior beneficiada foi, assim como em 2002, a petista Beth Sahão. Levou R$ 236 mil dos usineiros. “Minha relação com o setor é antiga. Sei da importância da cana para a geração de riqueza na região.”
A usina Moema, com unidades em Orindiúva e Guaraci, foi a que mais gastou nesta campanha: R$ 1,01 milhão, a maior parte para candidatos mineiros.
A região tem 694,3 mil hectares com cana, o equivalente a 22% do total do Estado. Procurada pelo BOM DIA, a Unica (União da Agroindústria Canavieira) não quis se pronunciar sobre o assunto.
Moema doa R$ 1 mi em MG
Com projetos de construção de unidades no Triângulo Mineiro, a usina Moema investiu R$ 1 milhão em candidatos de Minas Gerais, entre eles o governador Aécio Neves (PSDB).
O maior beneficiado foi o deputado estadual José de Freitas Maia (PSDB), de Iturama, com R$ 280 mil, seguido pelo também tucano Nárcio Rodrigues, deputado federal com base em Frutal, que recebeu R$ 120 mil.
A usina Moema tem interesse direto nas doações: desde o início do ano constrói uma usina em Frutal, cuja previsão de inauguração é no início de 2007. A gerência da usina não retornou os pedidos de entrevista feitos ontem pelo BOM DIA.
As doações do setor
Colombo (Ariranha) - R$ 52.000
Açúcar Guarani (Olímpia) - R$ 2.000
Petribu (Monte Aprazível) - R$ 80.000
Virgolino de Oliveira (Catanduva) - R$ 251.000
São Domingos (Catanduva) - R$ 78.000
Cerradinho (Catanduva) - R$ 38.172
Moema (Orindiúva) - R$ 1.011.000
Moreno (Monte Aprazível) - R$ 20.000
Dados: Tribunal Superior Eleitoral
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (17/11/2006)
Para o cientista político da Unesp de Marília Paulo Cunha, o aumento da participação do setor sucroalcoleiro reflete o crescimento econômico das usinas nos últimos quatro anos. “Como o Congresso e a Assembléia Legislativa decidem boa parte das políticas agrícolas, é estratégico o apoio dos deputados”, diz.
Dos deputados da região, a maior beneficiada foi, assim como em 2002, a petista Beth Sahão. Levou R$ 236 mil dos usineiros. “Minha relação com o setor é antiga. Sei da importância da cana para a geração de riqueza na região.”
A usina Moema, com unidades em Orindiúva e Guaraci, foi a que mais gastou nesta campanha: R$ 1,01 milhão, a maior parte para candidatos mineiros.
A região tem 694,3 mil hectares com cana, o equivalente a 22% do total do Estado. Procurada pelo BOM DIA, a Unica (União da Agroindústria Canavieira) não quis se pronunciar sobre o assunto.
Moema doa R$ 1 mi em MG
Com projetos de construção de unidades no Triângulo Mineiro, a usina Moema investiu R$ 1 milhão em candidatos de Minas Gerais, entre eles o governador Aécio Neves (PSDB).
O maior beneficiado foi o deputado estadual José de Freitas Maia (PSDB), de Iturama, com R$ 280 mil, seguido pelo também tucano Nárcio Rodrigues, deputado federal com base em Frutal, que recebeu R$ 120 mil.
A usina Moema tem interesse direto nas doações: desde o início do ano constrói uma usina em Frutal, cuja previsão de inauguração é no início de 2007. A gerência da usina não retornou os pedidos de entrevista feitos ontem pelo BOM DIA.
As doações do setor
Colombo (Ariranha) - R$ 52.000
Açúcar Guarani (Olímpia) - R$ 2.000
Petribu (Monte Aprazível) - R$ 80.000
Virgolino de Oliveira (Catanduva) - R$ 251.000
São Domingos (Catanduva) - R$ 78.000
Cerradinho (Catanduva) - R$ 38.172
Moema (Orindiúva) - R$ 1.011.000
Moreno (Monte Aprazível) - R$ 20.000
Dados: Tribunal Superior Eleitoral
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (17/11/2006)
Grupo chinês compra usina de álcool Petribu por US$ 70 milhões
O grupo chinês Noble confirmou ontem a compra da usina de açúcar e álcool Petribu, localizada em Sebastianópolis do Sul, a cerca de 80 quilômetros de Rio Preto. O investimento é de US$ 70 milhões e faz parte da estratégia da empresa de começar a atuar no setor sucroalcooleiro no país.
A informação mexeu com empresários do setor. A aquisição é vista como processo que será fortalecido a partir de julho deste ano e vai envolver mercados asiáticos.
“É uma sinalização da mudança de perspectiva. O setor se apoiava nos mercados do Japão e americano e agora terá China, Japão, Coréia, Tailândia e Índia, que vão aditivar ou consumir o álcool em maior escala. Imagine veículos flex em todos os países”, afirma o consultor do setor sucroalcooleiro e conselheiro da Udop (União dos Produtores de Bioenergia), Fernando Perri.
Ele afirma ainda que a transação mostra que o álcool é a solução energética mais viável em substituição aos combustíveis fósseis.
O Noble anunciou a compra da Petribu em comunicado. "O investimento é estratégico para o Noble Group no Brasil, que tem o custo mais baixo do mundo para a produção de açúcar e álcool e é o maior produtor e exportador de açúcar no mundo", afirmou Ricardo Leiman, vice-presidente de operações do grupo.
Sede fica em Hong Kong
O grupo Noble é sediado em Hong Kong e com ações listadas na bolsa de Cingapura. O grupo informou que o negócio no Brasil é "um passo em direção à meta de controlar sua própria rede global de fornecimento de açúcar e etanol, completando sua estratégia de médio a longo prazos".
No Brasil, o Noble também atua com outros produtos, como café e grãos. A atuação do grupo ocorre de forma integrada em produção, processamento, comercialização e transporte de matérias-primas.
O BOM DIA tentou ontem ouvir o ex-proprietário da Petribu, Jorge Petribu, mas ele está em viagem e não atendeu o celular.
Faturamento é de US$ 11 bi
O grupo Noble pretende investir no total US$ 200 milhões no projeto envolvendo a Petribu. A capacidade da usina é de moagem de 2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por ano. Aos poucos será ampliada para 4 milhões de toneladas até chegar a 10 milhões.
O negócio envolveu também a incorporação da Meridiano, empresa proprietária de terras no Estado.
O grupo, com negócios nas áreas de agricultura, mineração e combustíveis, tem forte presença na Ásia. Em 2005 o Nobel faturou US$ 11,7 bilhões e lucrou US$ 231 milhões. No Brasil, a empresa mantém escritórios em São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Cuiabá.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (8/2/2007)
A informação mexeu com empresários do setor. A aquisição é vista como processo que será fortalecido a partir de julho deste ano e vai envolver mercados asiáticos.
“É uma sinalização da mudança de perspectiva. O setor se apoiava nos mercados do Japão e americano e agora terá China, Japão, Coréia, Tailândia e Índia, que vão aditivar ou consumir o álcool em maior escala. Imagine veículos flex em todos os países”, afirma o consultor do setor sucroalcooleiro e conselheiro da Udop (União dos Produtores de Bioenergia), Fernando Perri.
Ele afirma ainda que a transação mostra que o álcool é a solução energética mais viável em substituição aos combustíveis fósseis.
O Noble anunciou a compra da Petribu em comunicado. "O investimento é estratégico para o Noble Group no Brasil, que tem o custo mais baixo do mundo para a produção de açúcar e álcool e é o maior produtor e exportador de açúcar no mundo", afirmou Ricardo Leiman, vice-presidente de operações do grupo.
Sede fica em Hong Kong
O grupo Noble é sediado em Hong Kong e com ações listadas na bolsa de Cingapura. O grupo informou que o negócio no Brasil é "um passo em direção à meta de controlar sua própria rede global de fornecimento de açúcar e etanol, completando sua estratégia de médio a longo prazos".
No Brasil, o Noble também atua com outros produtos, como café e grãos. A atuação do grupo ocorre de forma integrada em produção, processamento, comercialização e transporte de matérias-primas.
O BOM DIA tentou ontem ouvir o ex-proprietário da Petribu, Jorge Petribu, mas ele está em viagem e não atendeu o celular.
Faturamento é de US$ 11 bi
O grupo Noble pretende investir no total US$ 200 milhões no projeto envolvendo a Petribu. A capacidade da usina é de moagem de 2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar por ano. Aos poucos será ampliada para 4 milhões de toneladas até chegar a 10 milhões.
O negócio envolveu também a incorporação da Meridiano, empresa proprietária de terras no Estado.
O grupo, com negócios nas áreas de agricultura, mineração e combustíveis, tem forte presença na Ásia. Em 2005 o Nobel faturou US$ 11,7 bilhões e lucrou US$ 231 milhões. No Brasil, a empresa mantém escritórios em São Paulo, Santos, Rio de Janeiro e Cuiabá.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (8/2/2007)
Preço médio do álcool em postos tem alta de 7,1%
O preço médio do álcool nos postos de combustíveis de Rio Preto aumentou 7,1% na última semana. O BOM DIA, em visita a estabelecimentos de diferentes áreas da cidade, observou que o valor médio na sexta-feira era de R$ 1,36.
Levantamento realizado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) entre os dias 3 e 10 de março aponta que o preço médio do combustível na cidade era de R$ 1,27. A última pesquisa, no entanto, feita até quarta-feira, apontou R$ 1,30 como preço médio desse combustível na semana passada.
De acordo com Roberto Uehara, presidente do Sincopetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo) de Rio Preto, a elevação do preço do álcool nos postos se deve à falta desse combustível nas usinas. Segundo ele, as distribuidoras não estão conseguindo repor os produtos nos postos.
Outro fator que teria provocado a elevação de preços foi a portaria da ANP que proíbe a venda de álcool por outras empresas paralelas a postos bandeirados. “Com consumo em alta e estoques em baixa, o preço sobe”, afirmou Uehara.
O preço da gasolina também sofreu reajuste nos postos, conforme foi observado pelo BOM DIA. Na sexta-feira, o preço médio do combustível era R$ 2,46, enquanto na semana anterior, segundo levantamento da ANP, a gasolina era vendida, em média, por R$ 2,41.
Segundo levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o álcool anidro aumentou de R$ 0,84 para R$ 0,86, entre os dias 9 e 16 deste mês, nas usinas.
Segundo análise do Cepea, a alta de preços nas usinas na última semana ocorreu em reação às perdas de preços no início do mês. Em nota, a entidade afirma que, apesar do reajuste, os preços do álcool continuam abaixo do registrado em janeiro.
Para a entidade não existe risco de desabastecimento. A próxima safra inicia oficialmente em maio.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (18/3/2007)
Levantamento realizado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo) entre os dias 3 e 10 de março aponta que o preço médio do combustível na cidade era de R$ 1,27. A última pesquisa, no entanto, feita até quarta-feira, apontou R$ 1,30 como preço médio desse combustível na semana passada.
De acordo com Roberto Uehara, presidente do Sincopetro (Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo) de Rio Preto, a elevação do preço do álcool nos postos se deve à falta desse combustível nas usinas. Segundo ele, as distribuidoras não estão conseguindo repor os produtos nos postos.
Outro fator que teria provocado a elevação de preços foi a portaria da ANP que proíbe a venda de álcool por outras empresas paralelas a postos bandeirados. “Com consumo em alta e estoques em baixa, o preço sobe”, afirmou Uehara.
O preço da gasolina também sofreu reajuste nos postos, conforme foi observado pelo BOM DIA. Na sexta-feira, o preço médio do combustível era R$ 2,46, enquanto na semana anterior, segundo levantamento da ANP, a gasolina era vendida, em média, por R$ 2,41.
Segundo levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada), o álcool anidro aumentou de R$ 0,84 para R$ 0,86, entre os dias 9 e 16 deste mês, nas usinas.
Segundo análise do Cepea, a alta de preços nas usinas na última semana ocorreu em reação às perdas de preços no início do mês. Em nota, a entidade afirma que, apesar do reajuste, os preços do álcool continuam abaixo do registrado em janeiro.
Para a entidade não existe risco de desabastecimento. A próxima safra inicia oficialmente em maio.
Fonte: Jornal BOM DIA - São José do Rio Preto/SP (18/3/2007)
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